quarta-feira, 4 de maio de 2016

[TRADUÇÃO] Como nossa compreensão equivocada da "ciência" estraga tudo


Como nossa compreensão equivocada da Ciência estraga tudo

Pascal-Emmanuel Gobry, 19 de setembro de 2014

Quando todos usam uma palavra, mas ninguém é claro sobre o que a palavra realmente significa, isto é um sinal de que algo está muito errado com a nossa mente coletiva.

Uma dessas palavras é "ciência".

Todo mundo usa. "A ciência diz isso", "a ciência diz aquilo". "Você deve votar em mim porque a ciência (...)". "Você deve comprar este porque a ciência (...)". "Você deve odiar as pessoas de lá porque a ciência (...)".

Veja bem, a ciência é realmente importante. E, no entanto, quem entre nós pode facilmente fornecer uma definição clara da palavra "ciência", que coincida com a forma como as pessoas utilizam o termo na vida cotidiana?

Deixe-me explicar o que a ciência realmente é. A ciência é o processo pelo qual derivamos regras preditivas confiáveis ​​através da experimentação controlada. Essa é a ciência que nos dá aviões e vacinas contra a gripe e a Internet. Mas o que quase todo mundo quer dizer quando se diz "ciência" é algo diferente.

Para a maioria das pessoas, Ciência (com "c" maiúsculo) é a busca da Verdade (com "v" maiúsculo). É uma coisa praticada por pessoas vestindo jalecos e/ou fazendo cálculos elegantes que ninguém mais entende. A razão pela qual a Ciência com "c" maiúsculo nos dá aviões e vacinas contra a gripe não é porque é um processo incremental de engenharia, mas porque os cientistas são pessoas realmente inteligentes.

Em outras palavras - e este é o ponto chave - quando as pessoas dizem "ciência", o que eles realmente querem dizer é "mágica" ou "verdade".


Um pouco de história: o primeiro proto-cientista foi o intelectual grego Aristóteles, que escreveu muitos manuais de suas observações do mundo natural e que também foi a primeira pessoa a propor uma epistemologia sistemática, isto é, uma filosofia de o que é ciência e como se deve proceder a respeito dela. A definição de ciência de Aristóteles tornou-se famosa em sua tradução para o latim como: rerum cognoscere causas, ou, "o conhecimento das causas última das coisas". Por isso, em muitos livros Aristóteles é colocado como o Pai da Ciência.

O problema com isso é que não é absolutamente verdade. A "ciência" aristotélica foi um grande revés para toda a civilização humana. Para Aristóteles, a ciência começava com a investigação empírica e, em seguida, usava a especulação teórica para decidir pelo que as coisas são causadas.

O que nós conhecemos hoje como a "revolução científica" foi um repúdio a Aristóteles: a ciência, não mais como o conhecimento das causas última das coisas, mas como a produção de regras preditivas confiáveis ​​através da experimentação controlada.

Galileo refutou a "demonstração" de Aristóteles de que objetos mais pesados ​​devem cair mais rápido do que os leves, criando um experimento sutil e controlado (ao contrário da lenda, ele não simplesmente jogou dois objetos da Torre de Pisa). O que foi tão importante sobre este episódio de Galileu não foi que Galileu estava certo e Aristóteles errado; mas sim como Galileu refutou Aristóteles: através da experimentação.

Este método de fazer ciência foi então formalizado por um dos maiores pensadores da história, Francis Bacon. O que distingue a ciência moderna das outras formas de conhecimento, como a filosofia, é que ela abandona explicitamente o raciocínio abstrato sobre as causas últimas das coisas e, em vez disso, testa teorias empíricas através da investigação controlada. A ciência não é a busca da Verdade com "v" maiúsculo. É uma forma de "engenharia" - de julgamentos através do erro. O conhecimento científico não é conhecimento "de verdade", uma vez que é o conhecimento apenas sobre algumas proposições empíricas específicos - e que é sempre, pelo menos em teoria, sujeito a refutação por um experimento posterior. Muitas pessoas ficam surpresas ao ouvir isso, mas o fundador da ciência moderna o disse. Bacon, que teve uma carreira na política e foi um gestor experiente, realmente escreveu que os cientistas teriam de ser enganados a pensar que a ciência é uma busca da verdade, de modo a serem dedicados ao seu trabalho, mesmo que isso não seja verdade.

Porque é que toda esta história antiga é importante? Porque a ciência é importante, e se não sabemos o que a ciência realmente é, nós iremos cometer erros.

A grande maioria das pessoas, incluindo muitos dos formalmente educados, realmente não sabem o que a ciência é.

Se você perguntar à maioria das pessoas que a ciência é, eles vão te dar uma resposta que se parece muito com a "ciência" aristotélica - ou seja, o exato oposto do que a ciência moderna é realmente: Ciência com "c" maiusculo é a busca da Verdade com "v" maiúsculo. E a ciência é algo que não pode ser entendido por meros mortais. Ele oferece maravilhas. Tem altos sacerdotes. Tem uma ideologia que deve ser obedecida...

Isso nos leva ao engano. Já que a maioria das pessoas pensa que matemática e jalecos é igual a ciência, as pessoas chamam de ciência a Economia, embora quase nada em Economia é realmente derivado de experimentos controlados. Então, as pessoas ficam com raiva de economistas quando eles não preveem crises financeiras iminentes, como se ter um cargo titular numa universidade te dotasse com poderes mágicos. Incontáveis disciplinas acadêmicas ​​foram arruinadas pelos impulsos dos professores de fazerem-nas parecer "mais científicas", adotando as características superficiais da ciência baconiana (matemática, jargões impenetráveis, revistas revisadas por pares) sem a substância e esperando que isso irá produzir um melhor conhecimento.

Por as pessoas não entenderem que a ciência é construída sobre a experimentação, elas não entendem que estudos em áreas como a psicologia quase nunca provam qualquer coisa, já que somente a experiência replicada prova alguma coisa e, sendo os seres humanos muito diversificados, é muito difícil replicar qualquer experiência psicológica. É por isso que você encontra artigos com manchetes dizendo "Estudo comprova X" um dia e "Estudo comprova o oposto de X" no dia seguinte, cada um ilustrado com uma fotografia-estoque de alguém vestindo um jaleco. Isso faz um monte de gente pensar que a "ciência" não é tudo isso que dizem, uma vez que muitos estudos parecem se contradizer.

É por isto que você vê pessoas afirmando que a "ciência" decide sobre esta ou aquela decisão de política pública, embora com muito poucas excepções, quase nenhuma das opções de política que nós temos como comunidade política foram testadas através da experimentação (ou podem ser). As pessoas pensam que um estudo que usa magia estatística para mostrar correlações entre duas coisas é "científico" porque usa matemática de ensino médio e foi feito por alguém no prédio da Universidade, só que, corretamente falando, não é. Embora seja um fato que o aumento do dióxido de carbono na atmosfera leve, mantendo todo o resto invariante, a temperaturas atmosféricas mais elevadas, a ideia de que podemos prever o impacto do aquecimento global - e as políticas anti-aquecimento global! - até 100 anos a partir de agora, é pura loucura. Porém, porque é feito usando a matemática por pessoas com diploma, nos dizem que é "ciência", mesmo que, por definição, é impossível executar uma experiência em relação ao ano 2114.

É por isso que testemunhamos o fenômeno de neo-ateus[1] como Richard Dawkins e Jerry Coyne pensarem que a ciência tornou Deus irrelevante, mesmo que, por definição, a religião diz respeito às causas últimas das coisas e, mais uma vez, por definição, a ciência não pode falar sobre isso.


Você poderia pensar no apologista da ciência, culturalmente analfabeto [2], propagandista anti-católico mentiroso [3] e possível fabulista em série [4] Neil de Grasse Tyson (imagem acima) e na cartunesca militante anti-vacinas Jenny McCarthy [5] como pólos opostos em um espectro anti-ciência / pró-ciência, mas na realidade eles são os dois lados da mesma moeda. Ambos pensam que a ciência é uma espécie de "mágica", apenas um deles é relacionado à religião e o outro não.

O ponto não é que McCarthy não está errada sobre vacinas (ela está errada). A questão é que ela é nada mais que o resultado previsível de uma sociedade que se esqueceu de o que "ciência" significa. O fato de agruparmos tantas coisas diferentes na mesma categoria faz com que haja partes da "ciência" que não são ciência real, mas foram aglomeradas no entendimento da sociedade de o que é ciência. Isto se torna muito rentável para aqueles que se benefeciam um pouco do prestígio social que ronda a ciência, mas ao mesmo tempo significa que vivemos em um estado de confusão.

Isso também significa que por causa de todos esses choramingos sobre ciência, vivemos numa sociedade surpreendentemente não-científica e anti-científica. Temos muitas pessoas anti-ciência, mas a maioria dos nossos "pró-ciência" são na verdade pró-mágica (e, portanto, anti-ciência).

Este equívoco bizarro sobre a ciência leva ao paradoxo de que mesmo enquanto esperamos o impossível da ciência ("Por favor, Sr. Economista, perscruta sua bola de cristal e nos diga o que acontecerá se Obama aumentar ou cortar impostos"), temos também uma mentalidade muito anti-científica em várias áreas.

Por exemplo, a nossa abordagem sobre educação é positivamente obscurantista. Ninguém usa a experimentação rigorosa para determinar melhores métodos de ensino, e alguém que se atrevesse a fazê-lo seria encarado como estúpido. A primeira e mais importante cientista da educação, Maria Montessori, produziu um método de educação científica baseado em experimentos que tem sido largamente ignorado pela nossa sociedade supostamente amante da ciência. Temos departamentos de educação em universidades de grande prestígio, e absolutamente nenhuma ciência acontece em qualquer um deles.

A nossa abordagem às politicas públicas também é surpreendentemente pré-científica. Não tem havido quase nenhuma experiência de grande escala e verdadeiramente científica sobre políticas públicas desde os ensaios de campo randomizados da década de 1990, e ninguém parece perceber o quão bárbaro que é isso. Temos pessoas em Brookings [6] que podem editar planilhas e Ezra Klein [7] pode escrever sobre isso e dizer que isso comprova as coisas, temos toda a ciência que precisamos, muito obrigado. Mas isso não é ciência.

A ciência moderna é um dos inventos mais importantes da civilização humana. Mas a razão pela qual ela levou tanto tempo a ser inventada e a razão pela qual ainda não entendemos muito bem o que ela de fato é 500 anos mais tarde dificilmente são científicas. Não porque a ciência é "cara", mas porque ela requer uma humildade epistêmica fundamental. E a humildade é uma das coisas mais difíceis de espremer para fora dos animais bombásticos que somos.

Mas até que que encaremos a ciência como ela realmente é, que é ao mesmo tempo mais e menos do que mágica, ainda vamos estar com um pé na escuridão bárbara.

Notas de tradução

[1] A palavra original é "philistines", que é uma palavra que tem um sentido pejorativo nas línguas germânicas, relacionado a alguém que é considerado intelectual mas não tem a formação necessária para isso. Adaptei a palavra ao contexto, conforme o necessário.
[2] O autor justifica a acusação com outro artigo da mesma revista, entitulado "Porque Neil deGrasse Tyson é um ignorante" (um philistine). [Link]
[3] Veja a crítica à sua série de TV, Cosmos. [Link]
[4] [Link]
[5] Uma ex-modelo e atriz conhecida nos EUA por ter defendido a ideia de que vacinas causam autismo, apesar de não haver nenhuma evidência médica para o fato.
[6] Instituição norte-americana que faz pesquisas em ciências sociais.
[7] Blogueiro progressista estadunidense.

P.S. Desculpem a minha péssima tradução. Espero que eu melhore daqui pra frente.
Abraços, Paz de Cristo.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Werner Heisenberg e o fim da ciência materialista

Rita Foelker 



Werner Heisenberg (1901-1976) foi um cientista que valorizava a filosofia, interessava-se em refletir sobre a condição humana e nos deixou muitos textos filosóficos. Ele criticou a ciência materialista, tinha uma concepção própria da origem da ontologia materialista que predominou nas ciências posteriores a Descartes e entendia que este predomínio tinha relevantes consequências éticas e sociais.

Para adentrar alguns aspectos do pensamento do físico alemão, precisamos entender inicialmente em que consiste o materialismo que ele critica.

Para entender-se mais exatamente do que trata o materialismo, recorremos à abordagem sinótica de Oswaldo Pessoa Júnior (2006), que resume as teses do materialismo em dois grupos: as nucleares – definidoras do materialismo – e as periféricas, cuja negação pode ser consistente com ele. As teses definidoras do materialismo, para o autor, são:
  • A natureza segue seu curso conforme leis científicas nas quais, caso exista um Deus, ele não interfere.
  • Podemos nos referir à natureza como uma realidade independente da perspectiva do observador.
  • Nada existe fora ou independente da matéria, mente e alma são fenômenos explicáveis pelas leis da matéria.
  • Não existem desígnios ou causas finais, expressos nas leis da natureza.

Pensamento de Heisenberg


Ao ler os escritos de Heisenberg, verificamos seu entendimento de que a ciência não tinha estas características na Antiguidade e Idade Média. A natureza então era tida como uma criação divina e esta característica lhe era inseparável, o que se depreende das filosofias de Platão e Aristóteles.

A matematização das leis da natureza, contudo, que se inicia na Renascença com Galileu Galilei, tornaria possível pensar que se pode compreender o mundo sem necessitar de uma divindade, mas por meio das leis nela inscritas, que os homens desvendam. No século XVII, Descartes instituiria pela primeira vez na filosofia a cisão tripartite da realidade - entre o eu, o mundo e Deus –, num exercício de racionalidade que se pode acompanhar em suas Meditações Metafísicas. Seguindo os passos de sua argumentação, chega-se a uma conclusão cujo efeito é o sujeito e o objeto se apartarem um do outro, o pensamento de um lado, a coisa do outro, sendo atributo do pensamento compreender a coisa que é totalmente distinta dele. E ambos distanciarem-se de Deus.

A física clássica, a partir de Newton*, consubstanciaria a realização desse projeto: apresentaria um tipo de conhecimento eminentemente objetivo, da mente sobrepairando a matéria e podendo conhecê-la e manipulá-la, criando uma descrição do comportamento da matéria no espaço e tempo como uma entidade separada da mente e de Deus.

Os avanços da ciência no século XIX, contudo, mostrariam as dificuldades enfrentadas por esse modelo de ciência. O quantum de ação de Planck, a teoria do campo de Faraday, o experimento com a radiação do corpo negro de Maxwell, por exemplo, apresentariam resultados perturbadores dessa visão mecanicista-materialista. E a crise da física clássica se aprofundaria ainda mais após a publicação dos artigos de Einstein entre 1900 e 1905.

Para Heisenberg, os efeitos de tal crise ultrapassariam as fronteiras da ciência e colocariam em pauta o próprio conceito de realidade em que acreditamos.


Realidade


Diferente da física newtoniana, a física atômica e quântica apresentam conclusões contra-intuitivas: não obedecem à linearidade do tempo, inserem o observador no experimento, dissolvem a matéria em elementos ínfimos que não se parecem em nada com a matéria macroscópica de nossas experiências cotidianas. 
Quanto ao papel do observador nos experimentos, a relação entre sujeito e objeto implícita na física clássica era caracterizada pela total autonomia. Podia-se falar de átomos como coisas, como pequeninos objetos independentes em relação ao pesquisador. Os avanços da física moderna impossibilitaram esta compreensão da natureza, na medida em que não foi mais possível descrever o mundo sem referência ao homem, pois não mais se podia falar de um objeto observado do observador.

“Pouco a pouco, se foi modificando o significado da palavra [natureza] como objeto de pesquisa da ciência” (HEISENBERG, s.d., p.10). A ciência deixou de tratar da natureza, para tratar de nosso conhecimento da natureza.

As partículas mais diminutas se tornaram expressões meramente simbólicas, deduzidas matematicamente.

Como assimilar essas transformações?


A resposta a tantas transformações, segundo Heisenberg, seria repensar o conceito de ciência, abandonando o materialismo que a condicionava anteriormente e admitindo os limites da investigação científica.

Nesta nova perspectiva, a ciência não mais pode ser entendida como o único conhecimento possível da natureza. Nem a natureza pode ainda ser entendida como um conjunto de coisas.

A ciência é possível onde há certo grau de objetividade a ser alcançado. Quanto mais um determinado conhecimento está relacionado ao sujeito, menos a ciência pode se pronunciar sobre ele. Desse modo, há parcelas da natureza não alcançáveis pelo conhecimento científico.

A ciência não mais fala o que é a natureza – e nem poderia – ela não emite a última palavra sobre seu funcionamento como algo independente do modo como nos relacionamos com ela.

Heisenberg afirmará, em vista disso, que a ciência precisa ser vista como um elo da “cadeia infinita de contatos” que o homem estabelece entre si mesmo e a natureza.

Ao buscar a objetividade, escolher um centro de interesse e definir variáveis, a ciência de certo modo nos distancia da natureza em sua totalidade. Mas é ela também um meio de reconhecimento do papel do ser humano nessa rede de conexões que constitui a realidade.


A matemática


Ao fazer ciência, descobrir regularidades e traduzir conceitos em linguagem matemática (simbólica), o ser humano gera um grau de compreensão da realidade, segundo seu alcance intelectual. Para Heisenberg “a matemática é [...] a linguagem em que os problemas podem ser postos e resolvidos” (s.d., p57).

Ele afirmaria, também: “Se a natureza nos conduz a formas matemáticas de grande simplicidade e beleza [...], não podemos evitar pensar que elas sejam “verdadeiras”, que revelem um aspecto genuíno da natureza. Pode ocorrer que essas formas também abranjam nossa relação subjetiva com a natureza, ou seja, reflitam elementos de nossa economia do pensamento. Mas o simples fato [...] de nunca termos podido chegar a estas formas por nós mesmos, de elas nos serem reveladas pela natureza, é uma forte sugestão de que elas devem fazer parte da própria realidade, e não apenas de nossos pensamentos sobre a realidade” (HEISENBERG, 1971, p.68, tradução minha).

Heisenberg, assim, propõe que a natureza contém formas belas e simples que se traduzem matematicamente. Estas formas levam ao reconhecimento de uma ordem subjacente, inalcançável pela ciência, que Heisenberg denominaria em diversos escritos como “ordem central”. Segundo ele, “sempre houve um caminho para a ordem central na linguagem da música, na filosofia e na religião” (HEISENBERG, 1971, p.11, tradução minha).

“Ordem central”


O físico alemão afirma: “Nas diversas filosofias e religiões, vários nomes foram dados à bússola: felicidade, vontade de Deus, sentido da vida, para mencionar apenas uns poucos. [...] Tenho a clara impressão que tais formulações procuram expressar a relação do homem com uma ordem central. Todos sabemos que nossa própria realidade depende da estrutura da nossa consciência; não podemos objetivar mais que uma pequena parcela de nosso mundo. Porém, mesmo quando tentamos investigar o domínio subjetivo, não podemos ignorar a ordem central” (id., 1971, p. 214, tradução minha).

Ainda sobre o papel desta ordem, lê-se em Physics and Beyond..., que: “As condições geológicas e climáticas especiais vigentes no nosso planeta conduziram ao surgimento de uma química complexa do carbono, com moléculas gigantescas nas quais informação pode ser armazenada. O ácido nucléico mostrou-se um reservatório apropriado de informações sobre a estrutura dos seres vivos. Com ele, uma decisão única foi tomada e foi estabelecida uma forma que determinou todos os processos biológicos posteriores. [...] Nossas partículas elementares são comparáveis aos sólidos regulares do Timeu de Platão. São os modelos originais, as ideias da matéria. O ácido nucléico é a ideia do ser vivo. Tais modelos determinam todos os desenvolvimentos subsequentes. Eles são representativos da ordem central” (1971, p.240-241, tradução minha).

Retomando as teses definidoras do materialismo, percebemos a lógica de Heisenberg para destruí-las:

Há, portanto, uma ordem central subjacente a todos os fenômenos que integram a vida humana, ordem que revela regularidade, unidade, simplicidade e beleza das estruturas presentes na natureza. As leis científicas resultam de uma decisão, uma intenção inteligente, segundo Heisenberg, o que torna possível pensar-se num Criador, embora o físico alemão não admita isso abertamente.

A descrição da natureza não pode ser feita de sem levar-se em conta a perspectiva do observador, o que solapa a tese de um mundo externo totalmente independente.

Não existe apenas matéria. Há algo além da matéria no Universo, que pode ser traduzido como “ordem central” e é percebido em forma de relações matemáticas, beleza e simplicidade. A ocorrência de tais decisões torna possível pensar-se em causas além das meramente eficientes. Em uma teleologia ou finalidade para essas leis.

_____

*Newton, pessoalmente, não pensava deste modo, e entrever Deus por meio das leis do Universo é uma das características presentes em suas obras, especialmente a Optica.

PESSOA JÚNIOR, O. O dogmatismo científico de tradição materialista. In: Estudos de História e Filosofia das Ciências: subsídios para aplicação no ensino. São Paulo: Livraria da Física, 2006. p.41-57.

HEISENBERG, W. Physics and beyond: encounters and conversations. Londres: Allen & Unwin, 1971.______. Física e filosofia. Tradução Jorge Leal Ferreira. Brasília: UnB, 1981.

______. A imagem da Natureza na Física Moderna. Tradução J. I. Mexia de Brito. Lisboa: Livros do Brasil, s.d.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

[Vídeo] Por que Deus não se revela mais fisicamente?

Neste vídeo William Craig responde à questão comum das pessoas de porque Deus não aparece miraculosamente às pessoas, da forma como aparecia nos tempos bíblicos, por exemplo.

Vídeo original:



Transcrição:


Pergunta: Minha pergunta é para o Dr. Craig: A Bíblia diz que Jesus nos ama, que quer ter um relacionamento conosco e quer que acreditemos nEle. Ele até se mostrou a descrentes, como você mencionou - por exemplo, para pessoas como Tomé depois da crucificação - para ajudá-los a crer. Minha pergunta é: por que Jesus não continua a revelar-se fisicamente para as pessoas, particularmente, para incrédulos, para mostrar-lhes que Ele é real?


Resposta do Dr. Craig: Obviamente, Deus poderia fazer Sua existência ou a existência de Cristo mais evidente do que ela é. Ele poderia fazer as estrelas no céu formarem aspalavras "Deus existe"; ou ele poderia fazer com que cada átomo fosse marcado com uma etiqueta "feito por Deus". Então, claramente, Deus poderia fazer a sua existência muito mais óbvia. Porém, eu acho que a sua proposta foge ao ponto da questão. Deus não está interessado em apenas levar as pessoas a acreditarem que Ele existe, para assim aumentar os seus inventários ontológicos do Universo. Ele quer trazer as pessoas para uma relação salvadora e amorosa consigo mesmo. E eu penso que Deus, em Sua providência, soube como ajustar o mundo de forma ordenada, de modo a trazer um número máximo ou ótimo de pessoas a Ele livremente. E ele sabe que não é necessário ou vantajoso fazer Jesus de Nazaré aparecer miraculosamente a cada pessoa individualmente durante sua vida, a fim de proporcionar graça suficiente para a salvação de cada um.

De fato, é possível que em um mundo em que a existência de Deus está debaixo do nariz das pessoas o tempo todo, ou em que Jesus estaria constantemente aparecendo nos quartos das pessoas, as pessoas fiquem na verdade irritadas com a afronta de esse "intruso" aparecendo em sua suas casas o tempo todo sem ser convidado, e isso não levaria de forma nenhuma a uma fé mais profunda ou amor nEle. Por isso, penso que nós podemos confiar na sabedoria de Deus e em sua providência em preordenar o mundo de tal maneira que as pessoas recebem evidência adequada, embora não coercitiva para a Sua existência. E a pergunta para nós é como nós respondemos a isso.

Não é uma resposta adequada reclamar que você quer mais provas. Você precisa olhar para a evidência que você tem e tomar uma decisão com base nisso. Mas eu não acho que há qualquer razão aqui para pensar que Deus faria o que você sugere. É possível que isso não fizesse nada em relação a trazer um número maior de pessoas a um relacionamento salvífico com Ele.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

[TRADUÇÃO] O Ajuste Preciso do Universo para a Vida - 12 Pontos Rápidos


Olá, leitores. Trago mais um artigo traduzido do Saints and Sceptics. Este sobre o Argumento do Ajuste Fino do Universo, também conhecido como Argumento Teleológico, um dos argumentos baseados na ciência mais fortes em favor da existência de Deus.

Abraços, Paz de Cristo.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

[Vídeo] O que coloca o Cristianismo à parte das outras religiões?



Olá, leitores.

Em homenagem à Pascoa, que ocorreu há alguns dias, trago a transcrição de um vídeo sobre um assunto relevante: o que coloca o Cristianismo em destaque, em relação a outras religiões? A resposta tem a ver justamente com o evento que foi comemorado nesta festa cristã.

Feliz Páscoa (atrasado)!
Abraços, Paz de Cristo. (Ele vive!)

quarta-feira, 23 de março de 2016

[Problema do Mal] Refutando "O Guia Fácil e Rápido para desarmar um Religioso"


Olá, leitores.

A imagem acima circula na internet há algum tempo. Ao verificar a fonte, vi que trata-se de um blog de humor (de péssimo gosto, aliás). Eu tenho uma opinião sobre humor: ele não foi feito pra ser refutado, é apenas humor. É pra rir ou pra ignorar. Portanto, minha atitude padrão ao ver essa imagem seria simplesmente ignorar e continuar navegando na internet.

Entretanto, pela compaixão que tenho aos meus leitores menos experientes, que podem se sentir confusos ao se deparar com uma imagem como esta, me senti motivado a analisá-la segundo o que a filosofia e a teologia cristã realmente ensinam.

Eu poderia desde o início expor os pressupostos ocultos e falsos da imagem, ou ainda expor a questão sobre o problema do mal de um modo mais sistemático, que naturalmente eliminasse os paradoxos expostos na figura. Mas, para ser mais divertido, vamos seguir as setas nas linhas de raciocínio sugeridas na imagem. Para aqueles que querem uma análise mais aprofundada do assunto, aqui mesmo no blog você encontra material relativamente abundante, bastando procurar pela tag [Problema do Mal].

quarta-feira, 16 de março de 2016

[TRADUÇÃO] Por que muitos cientistas são tão ignorantes?



Por Pascal-Emmanuel Gobry  - 08 de março de 2016

A ciência tem um enorme prestígio e autoridade em nossa cultura - por razões muito compreensíveis! E isso levou os cientistas (e não-cientistas que reivindicam o manto da ciência) a reivindicar autoridade pública, que é bom, dentro de suas áreas de especialização. O problema é quando eles alegam autoridade em áreas onde eles não têm muita experiência.

Um exemplo recente é Bill Nye, o "Science Guy", que na verdade não é cientista, mas deve a sua carreira como um artista popular à sua suposta competência científica. Bill Nye foi recentemente convidado a opinar sobre se a filosofia é uma aspiração digna.



Como observou Olivia Goldhill em Quartz, a resposta de Nye era tão auto-confiante quanto incrivelmente ignorante. Nas suas palavras:

"O vídeo, que fez toda a comunidade filosófica dos EUA sufocar coletivamente em seu café matinal, é difícil de assistir, porque a maioria das declarações de Nye está errada. Não apenas 'meio errado', mas profundamente, ridiculamente errado. Ele mistura questões sobre consciência e a realidade como se elas fossem uma só e o mesmo tema, e se equivoca totalmente sobre o argumento de Descartes, "penso, logo existo" - isso só para mencionar dois dos muitos exemplos." [Quartz]

Nye caiu na mesma armadilha que Neil de Grasse Tyson e Stephen Hawking. A Filosofia, na opinião desses homens da ciência, é em grande parte inútil, porque não pode nos dar o tipo de certas respostas que a ciência pode, e equivale a pouco mais que especulação.

Há, obviamente, um grão de verdade nisso. A Filosofia não nos dá a certeza de que a matemática ou a ciência experimental pode dar (mas mesmo assim - como muitos filósofos apontariam - estes campos não nos dão tanta certeza quanto às vezes se diz). Mas isso não significa que a filosofia é inútil, ou que não tem rigor. De fato, em certo sentido, a filosofia é inevitável. Argumentar que a filosofia é inútil é fazer filosofia. Além disso, simplesmente não se pode fugir de algumas questões existenciais, e a filosofia é uma das melhores maneiras, ou pelo menos a menos ruim, que criamos para abordar essas questões.

Indo mais ao ponto, e na prática, todas as instituições que tornam a vida moderna possível, inclusive certamente a ciência experimental, mas também coisas como capitalismo de livre mercado, o estado de bem-estar social, a democracia liberal, os direitos humanos, e mais, são fundamentados na filosofia. Todas estas coisas são instituições culturais: elas existem porque muitas pessoas acham certas ideias valiosas e decidem agir nessas bases. Por uma questão histórica, a razão pela qual temos o método científico moderno é porque ele foi desenvolvido por pessoas, incluindo filósofos como Francis Bacon, e refinada por outros filósofos como Karl Popper. E se as ideias que estão na base destas instituições culturais se perdem, ou são mal-compreendidas, as instituições culturais podem deixar de funcionar. Este é o próprio caso da ciência. Isso significa que precisamos, no mínimo, de elites que podem entender essas ideias.

Em vez disso, nós nos tornamos uma cultura filosoficamente analfabeta em grande parte. Aparentemente todos os dias, você pode encontrar exemplos de pessoas que exibem um analfabetismo cultural impressionante - pessoas em posições nas quais isso simplesmente não deveria acontecer. A grande tradição filosófica sobre a qual nossa civilização é construída é deixada largamente de lado. Mesmo os currículos de "Artes liberais" em muitas faculdades* não ensinam os pensadores mais influentes. Se as nossas elites não estão sendo ensinados sobre essa grande tradição, então não deveria nos surpeender que alguns subconjuntos dessa elite - os cientistas experimentais e seus puxa-sacos - não sabem disso.

Isso é parte do problema. Mas é apenas uma parte dele. Afinal, como um grupo, os cientistas têm um interesse objetivo óbvio na ciência experimental sendo reconhecida como o único caminho para o conhecimento valioso, e, portanto, um interesse em desdenhar de outros caminhos para o conhecimento como menos válidos. As pessoas que ouvem os cientistas opinar sobre filosofia devem ter isso em mente.

E ainda há outro fator em jogo. Muitos, embora certamente não todos, dos cientistas que opinam aos quatro ventos sobre a inutilidade da filosofia são publicamente ateus. A forma de ateísmo que eles promovem pode ser chamada de "materialismo eliminativista", ou a noção de que a matéria é a única coisa que existe. Esta teoria é motivada pelo "cientificismo", ou a noção de que as únicas coisas cognoscíveis são cognoscíveis pela ciência. Um tanto paradoxalmente, essas proposições são essencialmente religiosas - descartar porções inteiras da experiência humana e do pensamento humano requer um empreendimento de . Eles também não são uma religião muito inteligente, uma vez que eles acabam simplesmente jogando proposições inconvenientes para baixo do tapete.

O fundamentalismo não é um sistema de crenças ou uma religião, é um estado de espírito. Pode existir religião fundamentalista, ateísmo fundamentalista, socialismo fundamentalista, libertarianismo fundamentalista, etc. O que todos eles têm em comum é, nas palavras de David Bentley Hart, "a recusa obstinada de pensar". O fundamentalista não é aquele cujas ideias são muito simples ou cruas. Ele é o único que teimosamente se recusa a pensar, quer através de outras idéias, ou nas próprias idéias.

Infelizmente, muitas das nossas maiores mentes nos dão um exemplo deste estado de espírito.

____________

* Nota do tradutor: Artes liberais é o sistema de disciplinas que surgiu na Antiguidade, em oposições às artes mecânicas ou trabalhos servis, e que foi desenvolvido nas universidades da Idade Média. O estudo de artes liberais incluía o trivium (lógica, gramática e retórica), com as disciplinas relacionadas à linguagem, e o quadrivium (aritmética, música, geometria e astronomia), com as disciplinas quantitativas.  e hoje em dia ainda é aplicado em universidades  norte-americanas, onde geralmente se obtém o título genérico de Bachelor in Arts (BA) ou Bachelor in Science (BS).

Fonte: The Week

quarta-feira, 9 de março de 2016

30 questões rápidas sobre Cristianismo (e 30 respostas concisas)



Créditos ao meu parceiro Vinicius Pinheiro pelo post original, que publico aqui com umas leves modificações que sugeri.

1) Se Deus nos ama tanto e quer que estejamos com ele, por que ele poria nossas almas em risco ao deixar a difusão de sua palavra a cargo de seres humanos falíveis, mentirosos e pecadores? Será que um professor deixaria um dos alunos assumir seu lugar se isto pusesse em risco o futuro da classe?

R: Se Deus é onipotente e todo-poderoso Ele pode ter supervisionado o processo sem interferir no livre arbítrio. Ele pode ter sincronizado previamente as circunstâncias de tal maneira que as pessoas certas nas condições certas estariam preservando Sua palavra. Lembrando que livre arbítrio não significa liberdade absoluta, mas unicamente a liberdade de escolher voluntariamente entre bem e mal.

2) Se Satanás é o Pai da Mentira, como podemos ter certeza de que ele não enganou os cristãos e fez com que eles o adorassem como deus e rejeitassem o verdadeiro deus?

R: Certamente um Deus onisciente, onipotente, e oni-benevolente, não permitiria que um impostor assumisse Sua identidade e enganasse bilhões de pessoas por tanto tempo. Esse Deus revelaria em Sua palavra as maquinações do diabo, e impediria o farsante de tentar enganar a humanidade.

3) Se Deus lançou o Diabo no inferno e o inferno é um lugar de castigo eterno, sem perdão, por que nos ensinam que o Diabo anda por aí nos tentando e nos possuindo? Um carcereiro que deixa seus prisioneiros saírem para matar e roubar seria demitido por incompetência.

R: De fato a questão parte de uma falsa premissa. A saber, que o diabo está preso no inferno atualmente. Satanás respondeu a Deus "que rodeia a Terra e passeia por ela" (Jó 1.7). Além disso, Pedro até diz que o diabo "anda ao derredor como leão que ruge buscando alguém para devorar" (1 Pedro 5.8). Não há consenso sobre a identidade dos anjos que estão aprisionados em 2 Pedro 2.4. De qualquer maneira, se deduz que não se trata de Satanás, porque ele é "o príncipe da potestade do ar", significando que ele habita na atmosfera do planeta e o influencia fortemente (Efésios 2.2).

4) Se Satanás consegue entrar até nas igrejas e fazer com que as pessoas tenham pensamentos impuros durante os cultos, como os cristãos podem ter tanta certeza de que ele não influenciou a redação e a composição da Bíblia segundo seus interesses?

R: Novamente, o Deus todo-bondoso e todo-poderoso não permitiria isso. Mesma resposta da questão número 2.

5) Deus pensa? Por que um ser que já sabe de tudo precisaria pensar?

R: Deus possui pensamentos eternos e imutáveis em vez de sequenciais e sujeitos ao tempo. Deus transcende o tempo, e portanto pensa sempre as mesmas coisas em um eterno presente.

6) Se o Universo está em todo lugar por definição, por que é que tem gente que vive perguntando “de onde veio o Universo”? Ele não pode vir dele mesmo… ou pode?

R: O universo não é a totalidade da realidade em si, mas sim a totalidade da realidade física. Logo não é verdade a premissa de que "o universo está em todo lugar por definição".

7) Se Deus é onisciente, como ele poderia ter se arrependido de sua criação?

R: Isso é figura de linguagem, antropopatia, e antropomorfismo. Em resumo, representam tentativas de descrever o Deus infinito mediante linguagem compreensível. Não é para ser interpretado literalmente ('arrepender-se' é uma ação que pressupõe tempo, e Deus não está sujeito ao tempo).

8) Se a alma é imaterial e o corpo é material, como é que a alma fica ligada ao nosso corpo?

R: Mas alma e corpo não são opostos mutuamente excludentes. O fato de algo ser imaterial não implica que seja o exato oposto da matéria, assim como o fato de que há moléculas diferentes não significa que sejam mutuamente excludentes. Dito isso, se infere nitidamente que não é impossível a co-existência entre o espírito e matéria. Tudo que existe tem semelhanças entre si, pois o oposto da existência não é outra existência, mas sim a inexistência.

9) Por que Deus mandou o dilúvio para eliminar o mal da Terra? Não funcionou! O mal voltou logo em seguida. Deus já deveria saber que isto iria acontecer, então por que ele se deu ao trabalho?

R: Premissa incorreta. O dilúvio não foi enviado para "eliminar o mal da Terra", mas somente para punir pecadores impenitentes. A diferença é sutil. Na verdade Deus só deseja eliminar o mal após os eventos descritos no livro de Apocalipse ou Revelação.

10) Se Deus é imutável, porque ele precisou “mudar as regras” enviando-se Jesus na Terra?

R: Ele não mudou as regras. Na verdade tudo isso já estava previsto desde a eternidade.

11) Por que um deus todo-poderoso teve que se tornar carne para poder se sacrificar em seu próprio nome, de modo a livrar sua criação de sua própria ira? Será que Deus, em sua sabedoria infinita, não teria uma solução menos primitiva?

R: Na realidade alguém teria que receber a penalidade do pecado, visto que Deus é justo e o mal não pode passar impune. Além disso, Deus é misericordioso e por essa razão determinou que Ele mesmo receberia a punição pelo pecado para que o homem pudesse se reconciliar com Deus. O juiz decretou que Ele mesmo pagaria o preço que custaria a liberdade do réu. Isso é compatível com a justiça e misericórdia de Deus.

12) Se tudo é “parte do plano de Deus”, como dizem os crentes, então Deus planejou todas as desgraças, todas as catástrofes e todos os nossos pecados e não precisamos sentir culpa por nada nem fazer nada para corrigir as coisas.

R: Tudo é parte do plano de Deus, mas o mal surgiu de forma permissiva. Deus não teve a intenção deliberada de produzir o mal. O mal surgiu porque criaturas racionais livres escolheram o mal em vez do bem. Deus teve uma boa razão para permitir o mal, mesmo que essa razão seja inescrutável para seres finitos e limitados como nós.

13) Porque os teístas dizem que eu preciso vasculhar todos os lugares do universo e não achá-lo para dizer que Deus não existe, se eu só precisaria não encontrá-lo em apenas um lugar, visto que é onipresente?

R: Deus é onipresente, mas em Sua natureza espiritual Ele é invisível aos olhos humanos. Logo mesmo Deus sendo onipresente, o homem não pode refutar um Ser que é invisível e imaterial.

14) Se Deus não é a causa da confusão, o que dizer da Torre de Babel?

R: Deus não causa confusão no sentido de que Ele é sempre verdadeiro e fiel. Todavia não no sentido de que Ele nunca poderia confundir a linguagem humana na Torre de Babel.

15) Cristãos dizem que se um bebê morrer, ele vai para o céu. Porquê então são tão contrários ao aborto, se isso privaria todas as crianças de irem para o Inferno?

R: Porque Deus é o criador e doador da vida e portanto o único Ser que tem o direito de tirá-la. A menos que Deus mesmo execute a ordem de tirar vidas, o ser humano não pode fazer isso. Estaríamos divinizando a nós mesmos se sem o consentimento do Deus Criador estivéssemos matando outras pessoas. Lembrando sempre que o novo testamento é o término da revelação divina.

16) Como Deus pode ter emoções (ciúme, raiva, tristeza, amor) se ele é omnipotente, omnisciente e omnipresente? Emoções são uma reação, mas como Deus pode reagir a algo que ele já sabia que iria acontecer e até planejou?

R: Antes de ser uma reação a emoção é uma sensação. Com respeito a Deus, a emoção é uma sensação eterna e imutável em vez de uma reação. Isso porque Deus, sendo criador do universo, transcende a sequência temporal. Ele vive em eterno presente. Sensação aqui tem o significado de sentimento intuitivo apenas.

17) Por que Deus permite que uma criança nasça se ele já sabe que ela vai para o inferno? Onde está seu amor infinito?

R: Porque Deus não viola nosso livre arbítrio. A escolha dos pais em praticar sexo ou gerar filhos é feita livremente e não pode ser interrompida por Deus. Isso mesmo que os filhos tenham conduta espiritualmente reprovável. É melhor ser livre que ser um robô ou um escravo.

18) Como podemos ser felizes no céu sabendo que pessoas que amamos estão sofrendo no inferno? Um crente me disse que as memórias que temos dos entes queridos são apagadas para não sofrermos no céu. Mas se perdemos nossa memória, não deixamos de ser nós mesmo?

R: É possível que Deus apague nossas memórias. E isso não faz com que deixemos de ser nós mesmos. Se for uma remoção parcial, isso não afeta necessariamente nossa identidade.  Pode ser também que as pessoas que vão para o céu adquiram um nível mais profundo de consciência que as faça entender o eterno propósito de Deus em punir as pessoas e as faça não sofrer por causa da situação dos perdidos.

19) Por que Deus abriu o Mar Vermelho para que Moisés tirasse os judeus do Egito mas não abriu os portões dos campos de concentração?

R: Deus possuía a intenção de preservar o povo hebreu no Egito pois planejava que Jesus nascesse através deles 1.400 anos depois. Por isso vemos tantas intervenções milagrosas no povo hebreu no Antigo Testamento, antes de Jesus. Avançando na história, vemos menos intervenção porque os judeus rejeitaram o próprio Messias, e assim de certa forma rejeitaram o próprio Deus. Ainda assim, Deus não rejeitou completamente os judeus (como Paulo afirma em Romanos 11), pois ainda tem um papel para eles no Apocalipse (a conversão final dos judeus será um sinal do fim dos tempos).

20) Por que dizem que temos livre arbítrio se só há duas opções: seguir a Deus e ir para o céu ou desobedecer e ir para o inferno?

R: Há a distinção entre livre-agência e livre-arbítrio. A livre-agência é a capacidade de escolha para questões não-morais, e de fato em relação a elas há várias possíveis. O livre-arbítrio é a capacidade de escolha moral, e em relação a esse só pode haver duas escolhas possíveis, de fato: bom ou mau, certo ou errado.

21) Em Isaías 40.28 diz “Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o SENHOR, o Criador dos fins da terra, nem se cansa, nem se fatiga?”. Então como é que os católicos dizem que Deus descansou no sétimo dia no Gênesis?

R: "Descansar" no hebraico significa "completar, encerrar". Significa que Deus completou o processo da criação. De modo nenhum significa que Deus estava realmente cansado e por isso descansou.

22) Judeus tradicionais dizem que o nome de Deus é impronunciável e por isso o chamam de Javé ou JHVH. Como é que então alguém pode ser acusado de falar seu nome em vão se ninguém sabe qual é?

R: Deus possui vários títulos, não somente o nome sagrado Javé. Ele é chamado de Elohim, Eloah, Adonai, etc. Falar qualquer um desses nomes em vão é pecar contra o Senhor Deus.

23) Por que Deus é do sexo masculino?

R: Deus é espírito e não tem gênero sexual. Ele é normalmente referido como ser masculino porque é o Criador do universo; e essa função é mais semelhante à função sexual ativa do homem que penetra e fecunda uma mulher. Em suma, Deus é transcendente e criador, assim como o elemento masculino, que está fora da mulher e fecunda a própria mulher.

24) Se você nasce retardado, sua alma também é retardada? E se você fica retardado depois de velho?

R: O corpo é somente o meio instrumental da alma. Quando o corpo não funciona bem a alma não pode operar bem através do corpo, assim como um pianista e seu piano. Mas a alma em si não tem essas deficiências. A alma existe independente do corpo, e fora do corpo ela funciona normalmente.

25) Por que precisamos rezar se Deus já sabe de tudo o que vamos dizer e do que precisamos? Será que ele gosta que nos humilhemos diante dele?

R: A função básica da oração é a comunhão com Deus, em adoração e louvor. A petição é meramente um aspecto secundário, não a razão básica. Pedimos a Deus como uma manifestação de adoração e intimidade com Deus, não como algo que tem importância independente.

26) Por que danos ao cérebro podem mudar nossa personalidade se nossa essência está na alma?

R: Novamente, a alma não funciona bem através de um corpo danificado, mas ela pode existir sem corpo e sem as deficiências do corpo.

27) Cristãos adora dizer o quanto Jesus se sacrificou por nós. Mas se ele era Deus, então como ele não sabia que em 3 dias estaria no céu para nos governar? Se ele está lá e vivo, o que exatamente ele sacrificou?

R: Jesus Cristo sacrificou Sua invulnerabilidade divina, ou seja, Sua incapacidade de sofrer e sentir dor. Como nosso substituto, Jesus suportou um sofrimento equivalente ao inferno eterno em poucas horas de crucificação. Sendo Deus, Ele nunca precisaria abdicar de Sua invulnerabilidade, menos ainda precisava sofrer um sofrimento infinito.

28) Como Adão e Eva podiam saber que era errado comer da Fruta do Conhecimento se só ao comê-la saberiam o que era bom e mal, certo e errado?

R: O tomar do fruto significava conhecer o mal por experiência própria. Certamente, em contraste com o bem, o primeiro casal já conhecia o conceito do mal e suas consequências.

29) Como podemos ofender a Deus se não é possível surpreendê-lo?

R: Novamente, Deus tem sentimentos eternos. Ele está sempre contente com a justiça e ofendido com a injustiça. Não é Deus que muda em relação a nós quando pecamos, somos nós que mudamos de um sentimento eterno de Deus para outro sentimento eterno. Quando mudamos do lado esquerdo para o lado direito de uma pilastra a pilastra não muda em relação a nós.

30) Em 1 Coríntos 15.50 diz “Isto afirmo, irmãos, que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção”. Como Jesus pôde então ascender ao reino de Deus se ele mesmo é carne e sangue?

R: "Carne e sangue" no contexto significam a carne perecível, sujeita ao sofrimento e à morte. O corpo glorificado não se enquadra nessa descrição.

Abraços, Paz de Cristo.

quarta-feira, 2 de março de 2016

[TRADUÇÃO] A Questão Última das Origens: Deus e o Início do Universo - William Lane Craig



Olá leitores. Trago com exclusividade um artigo acadêmico de William Lane Craig defendendo a tese de um início absoluto do Universo - tese que aponta diretamente para a existência de Deus, em contraste com vários modelos cosmológicos recentes que tentam fugir desta conclusão. O artigo foi traduzido por mim e o original encontra-se em reasonablefaith.org.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O Mito da Terra Plana

Olá. leitores. Iniciando o meu retorno à atividade, trago um texto que é bastante oportuno ao momento que estamos vivendo agora. Muitos testemunharam o surgimento de uma página no Facebook defendendo que a Terra é plana, supostamente utilizando argumentos e ainda contanto com milhares de seguidores (da última vez que vi, cerca de 25 mil; no momento parece que a página está fora do ar).

[ATUALIZAÇÃO (02/03/2016): A página está de volta e agora já conta com 30 mil seguidores - facebook.com/aterraeplana/ ]

É fato que defensores da Terra plana não são novidade no meio conspiracionista. Existem desde meados do século XIX, e no século XX surgiram algumas "sociedades da terra plana" ao redor do mundo. É difícil dizer se todas realmente acreditam no que defendem, mas é fato que algumas delas utilizam a defesa do absurdo como uma forma de ironia em relação a algumas outras defesas que eles também julgam absurdas (por exemplo, o criacionismo)...

Enfim, é bom lembrar que ainda hoje, existem pessoas que acreditam que o cristianismo apoia ou já apoiou oficialmente a ideia de uma Terra plana. Isto não passa de falsificação histórica, e com este artigo pretendo mostrar isso, através de uma extensa investigação e exposição de como o pensamento humano a respeito da Terra evoluiu com o tempo.

Aproveitem a leitura.
Abraços, Paz de Cristo.

Perspectivas para 2016


ATENÇÃO: ESTE BLOG NÃO MORREU!

Olá, leitores. Sei que estou há vários meses inativo por aqui (embora eu ainda poste com uma frequência razoável na página do Facebook). Estou há bastante tempo também sem visualizar e responder os comentários daqui. Já faz mais de dois anos que publiquei um post aqui avisando que devido aos meus afazeres acadêmicos (na época o final da graduação e início do mestrado), eu ficaria menos ativo por aqui mesmo. Na época nossa página no facebook contava com pouco mais de 6 mil fãs.

Porém, graças a Deus, nestes dois anos de inatividade, conseguimos publicar onze posts, e nossa página cresceu para mais de 14 mil fãs, marca alcançada recentemente. Agora, estou caminhando para uma etapa mais difícil ainda da minha vida, a saber, a conclusão do mestrado e o início do doutorado. E não pretendo abandonar o blog, assim como nunca pretendi. Em breve completaremos cinco anos de existência.

Ainda assim, para que o blog não acabe, eu vou precisar tomar algumas providências, e aliás, já estou tomando. Por meio deste post venho manter vocês informados.


Novos posts


Tenho uma pilha de rascunho, textos inacabados e traduções incompletas (talvez chegue a uns 10) que estou me esforçando para terminar e pretendo postar uma vez por semana, às quartas feiras, a partir de hoje. Isso me dá pelo menos uns dois meses para que eu possa me organizar e formular mais conteúdo para o nosso canal de comunicação.

Aliás, me comprometo a visualizar e responder (quando possível) os comentarios pendentes, nas proximas semanas!

Mudanças de visual


Este blog passou por inúmeras mudanças de visual ao longo de sua história... e apesar de eu até gostar deste atual, minimalista, ainda sinto que não está perfeito. Tenho desejo de melhor o layout, mas ainda não sei como.

Preciso mencionar uma mudança que já executei: acrescentei um botão de "imprimir" em baixo de cada artigo do blog. Ele aparece como na figura abaixo:


Com este app, é possível imprimir o artigo ou salvar uma cópia em PDF, com um layout mais "amigável" do que se fosse impresso diretamente pelo navegador.

Para quem quiser baixar vários artigos deste site em formato PDF, a seção de Downloads terá todos os artigos do blog já convertidos para este formato, numa pasta do Google Drive.

Contribua com este trabalho


Ainda é muito difícil pra mim continuar com um trabalho decente, apesar de toda a minha boa vontade. Tenho que dividir meu tempo com muita coisa, e não tenho fonte de renda além da minha bolsa de mestrado e de alguns trabalhos que faço ocasionalmente, como aulas particulares.

Este blog nunca teve fins lucrativos. Na verdade, eu até tentei uma vez colocar anúncios de publicidade por aqui, mas não demorou muito para que eu tirasse, porque considero isto incômodo para os leitores. Por isto, estou abrindo uma oportunidade, para quem quiser e puder, para quem já se sentiu ajudado com esta página alguma vez, ou para quem se sentir tocado a contribuir com este trabalho, que faça uma doação via Pay-Pal. O valor fica totalmente a seu critério. Ficarei muito grato com qualquer ajuda, e com certeza terei meu ânimo em escrever redobrado. Para doar, clique aqui.

Por fim, espero que ainda possamos estar ativos aqui por um bom tempo, por quanto tempo Deus permitir. "Destruímos argumentos e toda pretensão que se levanta contra o conhecimento de Deus". (2 Coríntios 10.5)

Abraços, Paz de Cristo.

terça-feira, 7 de julho de 2015

"7 dicas para vencer William Craig em debate"? Alguns comentários.

Olá, leitores.

Creio que William Craig seja alguém que dispense apresentações no meio apologético cristão. Ele tem dado palestras e participado de debates com ateus famosos do mundo todo, e é um dos apologistas mais famosos da atualidade. Com formação em Teologia e Filosofia, e escritor de alguns livros, ele já debateu com figuras como Antony Flew, Christopher Hitchens, Sam Harris, Peter Atkins e só não debateu com Richard Dawkins porque ele arregou fugiu mais de uma vez da oportunidade.

A desenvoltura de Craig nos debates é tão destacada que até mesmo ateus sensatos reconhecem isto. Costuma-se dizer que ninguém nunca "venceu" Craig em um debate (embora haja controvérsia em relação a um ou dois adversários). Embora tentativas de refutar seus argumentos sejam encontradas por aí na internet, até hoje nenhuma dessas pessoas se disponibilizaram para um debate ao vivo.

Pois bem, me deparei recentemente com uma dessas tentativas, do blog Religião e Ateísmo. O autor dá supostamente 7 dicas para vencer Craig em debate. O texto a seguir comentará brevemente essas dicas, incluindo críticas e contra-argumentos. A elaboração do texto deve-se principalmente aos leitores Felipe Ribeiro e Djonatan Küster, com revisões e alguns acréscimos feitos por mim.

Aproveitem a leitura.
Abraços, Paz de Cristo.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

[Notícia] Professor ateu reprova estudante por se recusar a condenar a fé cristã

Olá, leitores. Alguns de vocês provavelmente viram o filme recente Deus não está morto, que foi sucesso nas bilheterias mesmo aqui no Brasil. Ouvi críticas da parte de muitos ateus, dizendo que o filme mostrava um caso demasiadamente irreal, que professores ateus estúpidos daquele jeito não existiriam na realidade... pois bem, trago hoje com exclusividade uma notícia que vi num site norte-americano relatando um caso bastante semelhante ao do filme.

Abraços, Paz de Cristo.

sábado, 9 de maio de 2015

Sem margem para dúvidas: 23 Argumentos para a validade histórica da Ressurreição de Jesus Cristo


Se for verdade, a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos é o evento mais importante na história da humanidade, e, portanto, o mais crucial para estabelecer como um evento histórico autêntico. De fato, a ressurreição é a pedra angular da fé cristã, que mantém unidas cada uma de suas reivindicações e bênçãos. Se a ressurreição pudesse ser comprovada uma fraude, o Cristianismo se desintegraria como uma estória totalmente montada e com pouco mérito redentor. Jesus não seria sequer um exemplo de um "bom professor moral", como alguns sustentam, já que sua predição mais importante - que ele seria ressuscitado dos mortos - seria constatada como mentira.

Como cristãos, nossa própria salvação depende em grande parte da confiabilidade dos quatro registros históricos do nascimento, vida, morte, e especialmente a ressurreição de Jesus Cristo. Uma crença profundamente arraigada na ressurreição como um fato da história é um elemento vital para a nossa salvação eterna. Romanos 10. 9 afirma: "Se você confessar com a sua boca que Jesus é Senhor e crer em seu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo." Estamos brincando com a base da nossa salvação quando nós levamos em conta qualquer dúvida sobre a precisão histórica de alguma parte da Escritura. Contudo, os trechos que fazem reivindicações históricas das quais depende a nossa salvação são os mais cruciais.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Lista de Cientistas da Atualidade que Professam o Cristianismo




Olá, leitores. Sinto muito por estar inativo há um bom tempo, mas estou sendo absorvido pelas minhas atividades pessoais (que aliás são científicas!) e isso fez eu não ter quase nenhuma oportunidade de postar aqui. Mas as oportunidades surgem - e o que temos pra hoje?

Bom, muitos ateus ainda hoje vêm com aquele velho argumento de que a fé e a razão são incompatíveis, que não há lugar para o cristianismo na ciência... aquelas velhas falácias de sempre que qualquer um que já tenha lido algum artigo neste blog sobre isso vai saber refutar. A última que eu ouvi é que "mostrar que houve cientistas cristãos na história é fácil, afinal eles não sabiam sobre a evolução ou sobre a relatividade... quero ver citar algum cientista cristão vivo ou ativo".  Bem, primeiro vou deixar claro que nem a teoria da evolução nem a relatividade possuem conflitos com a fé cristã ou mesmo com a existência de Deus. Segundo, se a própria base da ciência foi estabelecida graças a princípios cristãos, porque não haveriam cientistas cristãos vivos e ativos hoje em dia? A lista é extensa.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Sobre Bertrand Russell e Por Que Ele Não Era Cristão - Parte 1 - Prefácio


Olá, leitores.

No último post anunciei que faria uma breve análise do ceticismo de Russell exposto em seu livro Por que não sou cristão, de 1957. Teria ele apresentado críticas relevantes ao teísmo cristão, ou apenas opiniões subjetivas e baseadas em conceitos ultrapassados? Seja qual for a resposta, é fato que esta publicação influenciou a geração seguinte de críticos à religião e adeptos do cientificismo. Testemunhamos o surgimento de um movimento de pessoas que publicamente não tiveram vergonha de, além de defender a não existência de Deus, fazer críticas severas aos sistemas religiosos, considerando-os prejudiciais à humanidade. Embora Russell se declare como agnóstico, o que pessoalmente considero menos tolo do que afirmar o ateísmo, ele faz críticas ao teísmo de forma a descartá-lo como uma opção assumível por uma mente pensante.

Um fato curioso é o título do livro. Russell não foi tão presunçoso quanto os seus colegas atuais neo-ateus e usou um nome que denota subjetividade: "Por que [eu] não sou cristão". O conteúdo da obra não é único, na verdade trata-se de uma coletânea de palestras, falas e pequenos ensaios do autor sobre o cristianismo e assuntos correlatos, como a existência de Deus e a moral religiosa. O primeiro capítulo é uma transcrição da palestra de 1927 que dá nome ao livro. Outro ponto alto da leitura é o capítulo que traz uma transcrição de um debate transmitido em rádio em 1948 sobre a existência de Deus, travado com o padre Frederick Copleston.

Antes de começar a análise do livro, gostaria de comentar algumas afirmações de Russell ainda no prefácio do seu livro, que merecem atenção. Para começar, Russell nos informa claramente qual a sua crença em relação a religiões:

"Considero todas as grandes religiões do mundo – budismo, cristianismo, islamismo e comunismo – não só falsas, como prejudiciais."

Achei muito interessante (e justo) aqui ele ter incluido o comunismo como uma religião, ou nas palavras dele, "um sistema de dogmas" (Unpopular Essays, 1950, p.19) . É fato que Russell visitou a União Sovética de Lenin após o final da Primeira Guerra Mundial, e ficou chocado com o autoritarismo e fanatismo do regime marxista na prática. Mas deixando isto de lado um pouco, Russell assume de antemão, no prefácio de seu livro, que todas as religiões são mentiras e não só isso, mas também são perigosas. Bem, vamos deixar que ele se explique nos capítulos seguintes. Ele continua: 

"É evidente, como questão de lógica, que, já que elas diferem entre si, apenas uma delas pode ser verdadeira. Com pouquíssimas exceções, a religião que um homem aceita é aquela da comunidade em que vive, o que torna óbvio que a influência do meio foi o que o levou a aceitar a referida religião."

Posso aceitar a sua primeira afirmação. Mas a segunda claramente não é uma verdade em 100% dos casos. Fosse assim, não existiriam budistas no Brasil ou cristãos na China. Além disso, se com isso ele quer argumentar que as religiões são falsas, ele está nada menos do que recorrendo a uma falácia genética, isto é, afirmando que algo é falso só por causa do modo como a informação foi aceita por alguém.

"É verdade que os escolásticos inventaram o que declaravam ser argumentos lógicos provando a existência de Deus, (...) mas a lógica a que esses argumentos tradicionais apelavam é (...) hoje rejeitada, praticamente, por todos os lógicos (...). Entre esses argumentos, existe (...) o argumento da prova teleológica da existência de Deus. Tal argumento, porém, foi destruído por Darwin (...)."

Aqui ele introduz o assunto sobre o qual vai discorrer brevemente no primeiro capítulo. Por um lado, é verdade que os argumentos aos quais Russell se refere tinham falhas, e não podem ser considerados hoje, pelo menos na forma em que ele os conhecia, como provas para a existência de Deus. Mas a teologia e filosofia cristã se desenvolveram bastante depois que Russell proferiu estas palavras, como comentei no post anterior. Inclusive o argumento teleológico, que ele alega ter sido "destruído" por Darwin, continua vivo hoje.

A seguir ele alega haver dois tipos de males intrínsecos às religiões. Nas palavras dele:

"[Em primeiro lugar,] (...) considera-se virtude ter fé, isto é, ter-se uma convicção que não pode ser abalada por prova contrária. (...) A convicção de que é importante crer-se nisto ou naquilo, mesmo que uma investigação livre não apóie a crença em apreço, é comum a quase todas as religiões e inspira todos os sistemas de educação estatais. O resultado disso é que o espírito dos jovens fica tolhido e cheio de hostilidade fanática tanto contra aqueles que possuem outros fanatismos (...).
(...) também existem, na maioria das religiões, doutrinas éticas específicas que causam dano definido. A condenação, pelos católicos, do controle da natalidade, tornaria impossíveis a diminuição da pobreza e a abolição da guerra. As crenças hindus de que a vaca é um animal sagrado e de que é imoral às viúvas tornar a casar, causam muito sofrimento desnecessário. A crença comunista na ditadura de uma minoria de Crentes Verdadeiros produziu farta colheita."

É notável que ele já começa com uma definição de fé que parece ter tirado do bolso, já que nada tem a ver com a definição cristã histórica. Em outras palavras, ele cria um boneco de palha do cristianismo para poder bater nele logo depois. A fé cristã não é uma convicção baseada unicamente em afirmações sistemáticas de autoridade (dogmas) muito menos em experiências puramente emocionais. Na verdade, ela consiste em uma mistura complexa dessas coisas com uma atitude racional de confiança. Idealmente, nenhum cristão acredita sem evidências, mas são as evidências que o levam a acreditar. Entre essas evidências inclui-se também a experiência pessoal com Deus. Há um artigo que escrevi há bastante tempo aqui sobre fé, que pode ser lido complementarmente, mas eu gostaria de voltar a esse assunto depois com mais calma. Mostrarei também ao longo do livro que muitas palavras que Russell usa contra a religião cristã me parecem ser apenas uso da falácia do espantalho.

Quanto à segunda crítica, deve-se primeiro notar que Bertrand Russell é um realista filosófico - ou seja, acredita na existência objetiva de uma realidade e de uma verdade. Consequentemente, sua ética é livre de relativismos. Ele realmente acredita que certas coisas são certas e certas coisas são erradas, independente de épocas ou opiniões. O problema é que ele não dá nenhuma base filosófica para essa afirmação.

Quando estudamos o argumento moral da existência de Deus entendemos que a única forma para admitirmos valores e deveres morais objetivos é a existência de um agente moral externo e absoluto, ou seja, Deus. Russell, ao ser questionado certa vez sobre isso simplesmente discorda desta afirmativa, e diz não conhecer uma resposta melhor. Em outras palavras, ele foge do argumento. Quando ele faz criticas à moral religiosa aqui, ele o faz porque certas atitudes morais de algumas religiões quebram os valores morais que ele mesmo apresenta/concorda. Mas espere! Se ele não tem como dar uma base para isso, os próprios valores morais dele são arbitrários! Não que eu não concorde com o que ele considera certo ou errado, mas estou apenas dizendo que ele não tem como dar uma base para o que ele está defendendo.

No fim do prefácio, Russell nos deixa com uma citação inspiradora baseada na sua defesa do livre-pensamento e na total aversão a qualquer tipo de autoridade ou regras no ensino:

"Gostaria de ver um mundo em que a educação tivesse por objetivo antes a liberdade mental do que o encarceramento do espírito dos jovens numa rígida armadura de dogmas, que tem em vista protegê-los, através da vida, contra os dardos das provas imparciais. O mundo precisa de corações e de cérebros francos, e não é mediante sistemas rígidos, quer sejam velhos ou novos, que isso pode ser conseguido."

Russell entende que as religiões são más justamente porque quebram esse "princípio moral absoluto" dele que é o direito ao livre-pensamento. Obviamente, a liberdade é uma coisa boa. E eu concordo que muitos sistemas de crenças dogmáticos podem prejudicar as pessoas, inclusive talvez o cristianismo, se for seguido de uma maneira não-sincera e legalista (como talvez devia ser comum na época e no lugar em que Russell vivia - comentarei sobre isso nos próximos posts também).

Na próxima parte discutiremos a exposição de Russell sobre os motivos para não ser um cristão e a sua análise dos argumentos clássicos para a existência de Deus.

Abraços, Paz de Cristo.

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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O Renascimento da Filosofia Teísta no Século XX


Olá, caros leitores.

Tenho estado ocupado com a minha vida pessoal nos últimos meses, o que tem me impedido de postar regularmente no blog. Desde o início do ano eu avisei que provavelmente o ritmo de postagem cairia, embora eu não gostaria de abandonar este trabalho, que é tão estimado por vocês leitores. 

Mas foi justamente em uma das minhas ocupações com o Mestrado que surgiu um assunto para ser trabalhado aqui. Enquanto eu estudava Metodologia Científica, tive contato com o trabalho de um filósofo que nunca parei para prestar atenção: Bertrand Russell (não, não é o cara da foto acima - eu já vou chegar lá, calma). E dentre os livros escritos por este filósofo, um me chamou a atenção: Por que não sou cristão, publicado em 1957. Eu vou ter mais tempo de falar sobre isso nas postagens próximas, mas o fato é que esse livro, junto com as tendências cientificistas de Russell, parece ter sido a influência principal para o surgimento de todo um movimento décadas depois - o neo-ateísmo. Sendo assim, eu não poderia deixar de dedicar algumas palavras aqui no blog à análise deste livro (mas não vou fazer isso agora).

Mas então, do que vou falar agora? Deixem-me explicar. Alguns argumentos para a existência de Deus que Russell citou no livro dele realmente eram considerados ultrapassados no tempo em que ele escreveu. Entretanto, quem lê este livro hoje em dia pode não ter ouvido falar do renascimento da filosofia teísta no século XX (é aí que entra o título da postagem).  Richard Dawkins, por exemplo, publicou em 2006 o livro Deus, um Delírio, que não é nada menos do que uma repetição das velhos refutações de Russell, sem se preocupar com o que mudou no mundo acadêmico da filosofia nos anos que separam estas duas personalidades. Resultado disto? O livro foi amplamente refutado, destruído impiedosamente pedaço por pedaço (veja aqui, aqui e aqui, por exemplo).

Eu não podia então deixar a oportunidade para contar pra vocês o que exatamente aconteceu nas últimas décadas que revitalizou o teísmo acadêmico e, indiretamente, a apologética cristã. O nome talvez mais importante nesta história toda é o do filósofo norte-americano Alvin Plantinga (ah, agora sim é o cara da foto!).

Plantinga chegou a estudar na Universidade de Harvard como aluno de graduação. Naquele tempo, início dos anos 1950, já se formava uma grande mobilização em favor da não-existência de Deus nos círculos acadêmicos. Em uma de suas palestras, Plantinga chegou a afirmar uma vez que, não fosse a sua transferência para o Calvin College, uma faculdade confessional cristã na qual seu pai lecionava, ele provavelmente não permaneceria cristão, nem teria desenvolvido o interesse acadêmico neste assunto. Anos mais tarde, em 1958, Plantinga obteve seu Ph.D. na Universidade de Yale. Ironicamente, um ano após a publicação do livro anti-cristão de Russell.

Enquanto isso, aquela geração estava mais indiferente acerca de Deus e a religião do que nunca. Em 8 de Abril de 1966, a revista Time publicou uma matéria de capa, a qual lançava a pergunta em letras garrafais: “Deus Está Morto?”. A reportagem, que pode ser lida online ainda hoje, tratava da “morte de Deus” ocorrida nos ambientes acadêmicos americanos, inclusive na própria teologia.


Um ano depois, em 1967, Plantinga publica o seu primeiro livro: God and Other Minds: A Study of the Rational Justification of Belief in God (Deus e Outras Mentes: Um Estudo sobre a Justificação Racional da Crença em Deus). Este livro foi o marco de uma revolução acadêmica. Seguiram-se após ele um sem número de publicações acadêmicas anglo-americanas sobre o assunto. O filósofo ateu Quentin Smith, da Universidade de Western Michigan, comentou com pesar este fato:

“Em meados do século XX, as universidades (...) haviam se tornado essencialmente secularizadas. A posição (...) padrão em cada campo (...) supunha ou envolvia argumentos favoráveis a uma visão de mundo naturalista; os departamentos de teologia ou religião almejavam entender o significado e as origens dos escritos religiosos, não para desenvolver argumentos contra o naturalismo. Os filósofos analíticos (...) tratavam o teísmo como uma cosmovisão antirrealista e não cognitivista, requerendo a realidade não de uma divindade, mas meramente de expressões emotivas ou de certas “formas de vida” (...)Os naturalistas assistiram passivamente enquanto as versões realistas do teísmo, influenciadas principalmente pelos escritos de Plantinga, começaram a propagar-se por toda a comunidade filosófica, até que hoje talvez um quarto ou um terço dos professores de filosofia são teístas, sendo a maioria cristãos ortodoxos. Na academia, Deus não está “morto”; voltou à vida no final da década de 1960 e está agora são e salvo em seu último bastião acadêmico: os departamentos de filosofia.” SMITH, Q. The Metaphilosophy of Naturalism, Philo 4/2 (2001): 3-4.

O ressurgimento do interesse no teísmo, apesar de às vezes denominado Revolução Silenciosa, não passou despercebido da cultura popular. Em 1980, a revista Time novamente publica o importante artigo Modernizing the Case for God (Modernizando a Defesa de Deus), que descrevia o despertar entre os filósofos contemporâneos para remodelar os argumentos tradicionais a favor da existência de Deus. Abaixo um trecho traduzido do artigo:

“Numa tranquila revolução no pensamento e no debate, que quase ninguém teria previsto apenas duas décadas atrás, Deus está fazendo uma reaparição. O mais curioso é que isso não está acontecendo entre teólogos ou crentes comuns, mas nos seletos círculos intelectuais dos filósofos acadêmicos, onde há muito o consenso baniu o Onipotente do discurso proveitoso.”

O Renascimento da filosofia teísta cristã no último século acompanhou-se do interesse na teologia natural, ou seja, o estudo sobre Deus independente da revelação. Muitos argumentos clássicos para a existência de Deus que remontam à Idade Média foram reformulados nos moldes mais rigorosos da filosofia contemporânea. Dentre eles, podemos citar:

  • O Argumento Ontológico, que remonta a Santo Anselmo no século XIII, foi refutado por Kant no século XVIII e reformulado por Alvin Plantinga no seu segundo livro The Nature of Necessity (A Natureza da Necessidade) em 1974. Este argumento fala sobre a existência de Deus baseado no conceito de que Deus é o maior ser concebível do Universo e o contraste entre a existência na realidade e a existência apenas na mente.

  • O Argumento Teleológico de Richard Swinburne, publicado em 1979 em seu livro The Existence of God (A existência de Deus). Este argumento transforma a questão da existência de Deus em probabilística, e usa um raciocínio indutivo amparado por evidências como a ordem apresentada no Universo.

  • O Argumento Cosmológico Kalam (chamado assim por ter sido o nome da versão do argumento da causa primeira pelo filósofo muçulmano do século XI Al-Ghazali), que foi tema da dissertação de mestrado de William Lane Craig e apareceu em seu livro The Kalam Cosmological Argument, também de 1979. Este argumento fala de Deus como a causa necessária para o Universo e se apoia no fato de que o Universo teve um início.

Apesar dos argumentos serem uma motivação para a racionalidade da crença em Deus, eles não necessariamente se constituem em provas absolutas. Plantinga defende que a crença em Deus é o que os filósofos costumam chamar de uma crença básica: para se acreditar na existência do passado, na ideia de que as outras pessoas têm um intelecto ou que um mais um é igual a dois, não se precisaria de prova. Ele argumenta ainda que a cosmovisão teísta, que vê o universo organizado e dirigido por um Deus que deu origem a criaturas racionais à sua própria imagem, “é muito mais acolhedor para a ciência que o naturalismo. (...) Na verdade, é o teísmo, não o naturalismo, que merece ser chamado de 'visão científica do mundo'”, escreve ele. Dizer que a crença teísta é irracional não é possível sem demonstrar que ela não corresponde à verdade, o que, diga-se de passagem, não é algo que a ciência é capaz de fazer neste caso.

Alvin Plantinga é considerado atualmente, junto com Richard Swinburne, o filósofo da religião mais importante do mundo. Desde 1982 ele ocupa a cadeira John A. O’Brien de filosofia na Universidade de Notre Dame. William Lane Craig tem se destacado há muitos anos pelos seus debates acadêmicos com ateus famosos, além de seus livros. Entre os seus adversários, encontram-se nomes importantes como o ex-ateu Anthony Flew, o já falecido jornalista Christopher Hitchens, o neurocientista Sam Harris, dentre outros. O próprio Richard Dawkins se recusou mais de uma vez a debater com ele.

Os ateus contemporâneos, seguidores de autores como Dawkins, Hitchens, Sam Harris e Daniel Dennett (conjunto que já foi chamado de “os quatro cavaleiros do neo-ateísmo”) parecem estar incrivelmente alheios a esta revolução da filosofia anglo-americana. Devido à enxurrada de best-sellers ateus que presenciamos nos últimos anos, se poderia pensar que a crença em Deus se tornou intelectualmente indefensável para uma pessoa pensante atual. Mas vimos claramente que isso se trata apenas de uma mera desinformação, de um eco fantasmagórico da voz de Bertrand Russell e do seu cientificismo que já foi suplantado há décadas por pensadores de seu próprio campo de trabalho (a filosofia analítica), como Plantinga, Swinburne e Craig.

Abraços, Paz de Cristo.
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