quarta-feira, 9 de março de 2011

Porque o Deus Cristão não é impossível (parte 1)

Esse texto é uma resposta ao texto "Porque o Deus Cristão é impossível", no site ateus.net. Acabei de lê-lo rapidamente, agora ciente do tipo de argumentos falaciosos ou impróprios que são usados pelas pessoas por aí para não admitir a existência de Deus. Falei sobre a fé em Deus em uma série de posts aqui, e farei desse um complemento, refutando o texto parágrafo por parágrafo. Os textos extraídos estarão destacados em itálico.


Introdução

Os cristãos consideram que a existência de seu Deus é uma verdade óbvia. Esta assunção é falsa, não apenas porque falta qualquer evidência para a existência deste Deus — que, apesar de onipresente, é invisível —, mas porque a própria natureza que os cristãos atribuem a este Deus é autocontraditória.


Ver na série de textos sobre fé, o tipo de evidências que se pode esperar para alguém como Deus (que não é físico).

Provando uma negativa universal



Muitos cristãos, assim como muitos ateus, alegam que é impossível provar uma negativa universal. Por exemplo, apesar de não haver evidências de que unicórnios ou dragões existem, não podemos provar sua inexistência. A não ser que tenhamos um conhecimento completo do Universo, precisamos a admitir a possibilidade de que, em algum lugar do Universo, talvez existam tais seres.



Mas a alegação de que a onisciência é necessária para provar uma negativa universal presume que o conceito que estamos discutindo é logicamente coerente. Se os atributos que conferimos a um objeto ou ser hipotéticos são autocontraditórios, então podemos concluir que este não pode existir e, portanto, não existe. Não é necessário todo o conhecimento do universo para provar que esferas cúbicas não existem. Tais objetos têm atributos mutuamente exclusivos que tornam sua existência impossível. Um cubo, por definição, tem oito vértices, enquanto a esfera não tem nenhum. Tais propriedades são completamente incompatíveis — não podem estar contidas simultaneamente no mesmo objeto.



Concordo com a teoria.




Pretendo demonstrar que as supostas propriedades do Deus cristão Iavé, assim como as de uma esfera cúbica, são incompatíveis, e, ao fazê-lo, demonstrar que a existência de Iavé é impossível.



Aí vamos ver...




Definindo Iavé

Os cristãos dotaram seu Deus de todos os seguintes atributos: ele é eterno, todo-poderoso e criou todas as coisas; criou todas as leis da natureza e pode mudar qualquer coisa por meio de um ato de sua vontade; é todo-bondade, todo-amor e perfeitamente justo; é um Deus pessoal que experimenta todas as emoções de um ser humano; é todo-sabedoria; vê todo o passado e todo o futuro.



Sobre os atributos de Deus, eu também expliquei lá no outro post: "O Deus axiomático é um Ser absoluto, único, perfeito, pessoal, imaterial e atemporal que criou o Universo. Não podemos definir mais características para Ele, apenas intuitivamente. Talvez possamos assumir que, como Ele criou o mundo, através de um planejamento, que suas capacidades de executar algo ou de conhecer algo sejam muito maiores do que a capacidade de qualquer coisa que há no Universo. Se formos mais fundo e assumirmos que Deus criou o conceito de número, estando associado apenas a esse Universo, os atributos de Deus não poderiam ser medidos por números, seriam essencialmente infinitos." Sobre experimentar as mesmas emoções de um ser humano, não estamos completamente certos disso; sabemos que Deus possui e expressa emoções, pela Bíblia; mas se Ele as sente do mesmo jeito que nós, é difícil de dizer, principalmente por sua noção de bondade e justiça que é infinitamente superior à nossa.


A criação de Deus era originalmente perfeita, mas, os humanos, ao desobedecê-lo, trouxeram a imperfeição ao mundo. Humanos são maus e pecadores, e precisam sofrer neste mundo devido à sua pecaminosidade. Deus dá aos humanos a oportunidade de aceitar o perdão de seu pecado, e todos que o fizerem serão recompensados com a bem-aventurança no céu, mas, enquanto estiverem na Terra, devem sofrer por sua causa. Todos os humanos que decidirem não aceitar este perdão serão enviados ao inferno para sofrer o tormento eterno.



A Bíblia não diz que a criação de Deus era perfeita, disse que era muito boa (Gn 1.31). É claro que depende do sentido da palavra "perfeito" que se esteja assumindo. Humanos são pecadores, mas não são essencialmente maus. Foram criados bons, ou seja, em total harmonia com Deus. Tornar-se mau é simplesmente afastar-se dele, pois o mal não existe por si só, é apenas a falta de bem. O pecado do homem tornou-o capaz de se aproximar de Deus, mas a Bíblia não relata isso como um engano ou algo terrível, que transmite culpa ao homem. Pelo contrário, se Deus permitiu acontecer foi algo que era propósito dele, e fazia parte do desenvolvimento do ser humano. Sobre o problema do sofrimento e o inferno, veja as respectivas categorias aqui no blog.


Um verso que muitos cristãos gostam de citar diz que ateus são tolos (Cf. Salmos 14:1). Pretendo demonstrar que os conceitos divinos mencionados acima são completamente incompatíveis, e revelar a impossibilidade de todos eles co-existirem simultaneamente no mesmo ser. Não há qualquer tolice em negar o impossível; tolice é adorar um Deus impossível.

Até agora o texto não mostrou nenhum argumento para isso.

A perfeição busca ainda mais perfeição
O que Deus fez durante aquela eternidade anterior à criação de todas as coisas? Se Deus era tudo que existia naquele tempo, o que perturbou o equilíbrio eterno e o induziu à criação? Estava entediado? Estava solitário?

Deus supostamente é perfeito. Se algo é perfeito, este algo é completo — não precisa de qualquer outra coisa. Nós, humanos, nos engajamos em atividades porque estamos buscando uma perfeição elusiva, pois há um desequilíbrio causado pela diferença entre o que somos e o que queremos ser. Se Deus é perfeito, então não pode haver desequilíbrio. Não há qualquer coisa de que ele necessite, qualquer coisa que deseje ou qualquer coisa que deva ou irá fazer. Um Deus que é perfeito não faz qualquer coisa senão existir. Um criador perfeito é impossível.

Se Deus é atemporal, Ele não faz nada "durante" algum evento. Se Deus criou o tempo junto com a criação do Universo, não existe "antes da Criação". Isso é muito difícil de conceber, mesmo para nós cristãos. Uma questão que não foi respondida até hoje, e que provavelmente nunca será respondida com exatidão, é a razão da Criação. Porque Deus criou o mundo? Ele precisava disso? Se Ele é auto-suficiente, não. Mas em que há sentido na existência, se não se faz nada? Se Ele simplesmente existisse só, ad eternum, seria o mesmo que não existir. A Criação, na minha humilde opinião, é uma simples expressão de sua existência (alguns iriam além e diriam que é a prova da existência). Se algo existe, e não se manifesta, o efeito prático de sua existência é nulo. Mas se encontramos uma manifestação da existência desse ser, isso "prova" que Ele existe.


A perfeição gera imperfeição


Entretanto, por mero exercício intelectual, continuemos. Suponhamos que este Deus perfeito tenha realmente criado o Universo. Os humanos foram a coroa de sua criação, visto que foram criados à sua imagem e têm a habilidade da tomar decisões. Entretanto, esses humanos destruíram a perfeição original escolhendo desobedecer a Deus.



Como!? Se algo é perfeito, nada imperfeito pode vir dele. Uma vez alguém disse que um mau fruto não pode vir de uma boa árvore; entretanto, este Deus “perfeito” criou um Universo “perfeito” que foi tornado imperfeito pelos humanos “perfeitos”.



A fonte última da imperfeição é Deus. O que é perfeito não pode fazer-se imperfeito, assim, os humanos devem ter sido criados imperfeitos. Tudo que é perfeito não pode criar coisas imperfeitas, então Deus deve ser imperfeito para ter criado seres humanos imperfeitos. Um Deus perfeito que cria seres humanos imperfeitos é impossível.



Isso tem a ver mais uma vez com a confusão sobre a definição de perfeito. Se o texto diz que perfeito é aquilo sem erros ou incapaz de errar, discordo que o homem foi criado perfeito. A perfeição da Criação de Deus é no sentido de atender exatamente ao propósito para o qual foi feito. A palavra latina perfectus tinha o sentido de "plenamente feito" ou "completo". O homem era completo porque tinha Deus, mas a qualquer momento ele podia escolher não ter e deixar de ser completo, adquirir um vazio interior.
Sobre a perfeição criar a imperfeição ser impossível, isso é mais uma vez uma falácia envolvendo a definição de perfeito. Somos imperfeitos (no sentido de que podemos errar) mas podemos construir algo perfeito (no sentido de que atende completamente ao propósito que idealizamos). Isso prova que o parágrafo dele foi apenas um jogo de palavras falacioso. Deus é perfeito, no sentido que não pode errar, mas pode criar seres que erram (já que Ele é Todo-Poderoso).




O argumento do livre-arbítrio


A objeção dos cristãos a este argumento envolve o livre-arbítrio. Eles dizem que um ser precisa possuir livre-arbítrio para ser feliz. O Deus todo-bondade não queria criar robôs, então deu aos humanos o livre-arbítrio para possibilitar a eles experimentar o amor e a felicidade. Mas os humanos usaram este livre-arbítrio para escolher o mal, e introduziram a imperfeição ao Universo originalmente perfeito de Deus. Deus não tinha controle sobre esta decisão, assim a culpa por nosso Universo imperfeito é dos humanos, não de Deus.



O cristianismo não prega (a meu ver) que o livre-arbítrio é essencial à felicidade. Eu tenho uma visão um pouco mais polêmica, acredito que a liberdade é uma ilusão. Se Deus nos criou completos porque uma parte de nós tem que ser "preenchida" por Ele, a nossa felicidade implica em ser dependente dele, e não de ser livre pra fazer o que quiser. Eu já disse também que o pecado do homem não pode ter sido um erro de Deus, logo, fazia parte do propósito dEle. Pode haver um propósito maior que não somos capazes de conceber.




Há vários motivos pelos quais este argumento é fraco. Em primeiro lugar, se Deus é onipotente, então a assunção de que o livre-arbítrio é necessário para a felicidade é falsa. Se Deus pôde fazer a regra de que apenas seres com livre-arbítrio poderiam experimentar a felicidade, então poderia, tão facilmente quanto, ter feito a regra de que apenas robôs poderiam experimentar a felicidade.



Não é bem assim. É certo que Deus cria regras, leis, para o funcionamento da natureza, mas a existência humana é muito mais complexa e orgânica. Estamos cansados de saber que o comportamento humano não pode ser descrito com fórmulas matemáticas, ao contrário da natureza. Além disso, Deus não pode criar impossibilidades lógicas, como um quadrado de três lados ou uma pedra tão grande que Ele não possa mover. A regra da felicidade pode estar encaixada nesse caso. Deve existir uma condição ótima de felicidade que não somos capazes de conceber, justamente por sermos humanos.




A última opção é claramente superior, visto que robôs perfeitos nunca poderiam tomar decisões que tornassem eles ou seu criador infelizes, enquanto seres com livre-arbítrio poderiam. Um Deus perfeito e onipotente que cria seres capazes de arruinar sua própria felicidade é impossível.



Podemos encaixar o parágrafo no meu comentário anterior. Só queria acrescentar que isso é uma clássica "reclamação humana de barriga cheia": se faz muito sol, reclamam; se chove, reclamam. O que estou querendo dizer é que se Deus nos criasse como robôs estríamos insatisfeitos porque Deus não nos deu vontade própria. Já que Deus nos deu vontade, o autor reclama porque não criou-nos como robôs. Isso é cansativo e patético.




Em segundo lugar, mesmo se admitirmos a necessidade do livre-arbítrio para a felicidade, Deus poderia ter criado humanos com livre-arbítrio que não tivessem a habilidade de escolher o mal, mas apenas entre várias opções boas.



Filosoficamente contraditório. Pelo princípio do terceiro excluído: "Ou A é x ou é não-x; não há terceira possibilidade". Logo, não podem haver várias escolhas. No fundo, só há duas: Deus ou não-Deus, também conhecido como mal. Se o ser humano só pudesse ter escolhas boas, seria o mesmo que não ter escolha, pois no fundo só teria uma.




Em terceiro lugar, Deus supostamente possui livre-arbítrio, e mesmo assim ele não toma decisões imperfeitas. Se humanos são imagens miniaturizadas de Deus, nossas decisões deveriam ser similarmente perfeitas. Ademais, os ocupantes do céu, que presumivelmente precisam possuir livre-arbítrio para serem felizes, nunca usarão este livre-arbítrio para tomar decisões imperfeitas. Por que os humanos originalmente perfeitos fariam diferente?



Não concordo com Deus possuir livre-arbítrio, a mesmo nível que nós. Se Ele é incapaz de errar por definição, sua livre-vontade não pode escolher errar, pois assim sendo Ele se tornaria o oposto do que é, seria uma contradição. Ele não pode porque não tem capacidade, Ele não pode porque se pudesse não seria quem Ele é.




O problema continua: a presença de imperfeição no Universo refuta a suposta perfeição de seu criador.



Refutado completamente. De novo o jogo de palavras.


O Deus todo-bondade cria sofrimento futuro premeditado




Deus é onisciente. Quando criou o Universo, viu os sofrimentos que humanos suportariam como resultado do pecado daqueles humanos originais. Ele ouviu os gritos dos condenados. Certamente ele sabia que seria melhor para esses seres humanos que nunca tivessem nascido — e a Bíblia, de fato, diz exatamente isso —, e certamente esta divindade toda-compaixão teria antevisto a criação de um Universo destinado à perfeição no qual muitos dos humanos estavam condenados ao sofrimento eterno. Um Deus perfeitamente compassivo que deliberadamente cria seres condenados ao sofrimento é impossível.





As pessoas tem a visão minimalista de achar que o sofrimento é uma coisa ruim. O sofrimento nos causa dor imediata, e por isso nós o vemos com tanta repúdia. Raramente pensamos no sofrimento como um passo necessário para um propósito maior. Nossos erros nos causam sofrimento, mas também geram aprendizado e conhecimento. Há pessoas que serão condenadas, mas se não houvessem, não saberíamos do que estamos sendo salvos, a Salvação não teria sentido e não teríamos uma prova concreta do amor de Deus por nós. Mais uma vez peço para procurarem os textos sobre o assunto aqui no blog.





Punição infinita por pecados finitos



Deus é perfeitamente justo, e ainda assim sentencia os imperfeitos humanos que criou ao sofrimento infinito no inferno por pecados finitos. Claramente, uma ofensa limitada não justifica uma punição ilimitada. A sentenciação divina dos seres humanos imperfeitos a uma eternidade no inferno por um pecado com a duração de uma mera vida mortal é infinitamente injusta. O caráter absurdo desta punição infinita mostra-se ainda maior quando consideramos que a fonte última da imperfeição humana é o Deus que os criou. Um Deus perfeitamente justo que sentencia sua criação imperfeita à punição infinita por pecados finitos é impossível.




O ser humano, mais uma vez, reclama de barriga cheia. O ateu costuma olhar muito mais para a condenação do que para a salvação. Já pensaram que (aos nossos olhos) também seria injusto dar uma recompensa infinita (a salvação) para um ato finito (nossa fé). Isso é um ato muito mais de amor do que de justiça. Olhar para isso e não se emocionar perante ao amor de Deus conosco é cruel. Outro detalhe que os ateus não vêem é que Deus ao julgar os homens só estará atendendo aos desejos dos mesmos. Já disse que só há duas escolhas possíveis: Deus ou não-Deus. Aqueles que quiseram Deus em vida terão sua escolha satisfeita eternamente. Aqueles que não quiseram, também terão a sua escolha satisfeita. A condenação não é uma situação de tormento proposital e punitivo, é uma situação de sofrimento inevitável. Um lugar onde Deus não "habita" não possui bem, amor nem justiça. Se as pessoas negam a Deus, é a isso que estão negando. E é isso que receberão, infelizmente. [Obs: Este argumento em especial já foi refutado aqui.]

 (Parte 2)


7 comentários :

  1. Caro David, boa noite. Antes de mais nada, parabenizo-o pelo blog, é uma tentativa louvável de discorrer sobre algo que poucos hoje (principalmente da sua idade) tem a coragem e a delicadeza de debater. O que mais vejo por aí são vontades nefastas e violentas de se vencer (não convencer) o outro da existência ou não existência de Deus, caindo muitas vezes no sarcasmo, ofensa, agressão verbal e níveis ainda piores. Muito feliz fiquei ao ver não isso, mas colocações seguras e sinceras de alguém que se dispõe a falar de um campo tão perigoso quanto o teológico.

    Meu nome é Fábio, também sou de exatas (Engenharia) e como você não sou ateu. Mas também não sou cristão. Sou politeísta, creio em diversos deuses, e gostaria muito de tentar entender e me aprofundar no pensamento cristão, visto ser um grande curioso no posicionamento filosófico, moral e religioso que é adotado pela maioria das pessoas e que influenciou muito nosso mundo ocidental.

    Começo com um questionamento complexo: você comenta neste post que o mal é a ausência de Deus, o não-Deus como chama. Mas, qual é, na prática, a natureza do mal? Justamente por não ser uma pergunta fácil de ser respondida, pode-se reduzir a sua resposta a "estar longe de Deus"? O mal é absoluto ou relativo, ou seja, depende ou não do referencial? Pode-se julgar o mal apenas verificando sempre se o fato está ou não dentro das leis de Deus? Que leis são essas, as da Bíblia? Pode-se dizer, com certeza, a que distância um fato ou uma pessoa está de Deus e, com isso, julgar com certeza a sua maldade? Há formas de se perceber Deus em uma pessoa para saber se ela é má ou não? Eu não creio nesse Deus, então sou necessariamente mau?

    ResponderExcluir
  2. Olá, rapaz. Obrigado pela leitura.

    No momento não estou e condições de responder essa pergunta, na verdade já estava no meu planejamento escrever um post falando sobre o problema do mal e sofrimento na terra, o que ainda não tem previsão de publicação. Vou tentar dissertar brevemente sobre o que penso a respeito disso.

    Sobre a natureza do mal (absoluto e relativo), acredito que existam os dois tipos. A ciência moderna alega que a moral é construída pela teoria da evolução, necessidade de permanência da espécie, etc. Nisso reside a explicação de muitas coisas que podemos considerar como certas ou erradas. Entretanto não acho que aí esteja a explicação para tudo. Há coisas que não podem ser explicadas por essa visão. Por isso acredito que há a moral absoluta também, aquela que temos quase que de forma inata, que nos faz saber que, por exemplo, torturar alguém por prazer é errado, visto que a moral evolucionária não explica isso. A moral absoluta é parte da "imagem" de Deus que nos foi posta na criação.

    Assim uma pessoa tem acesso ao conhecimento do mal absoluto mesmo estando "longe" de Deus, porque isto faz parte da natureza do homem. Só que, segundo cremos, a tendência a errar também faz parte da natureza do homem. Enfim, há mais coisas a serem ditas, podes esperar até eu escrever um post específico ou se quiser tirar mais alguma dúvida ou achar que eu não respondi claramente, por favor, responda o comentário.

    Abraços, Paz de Cristo.

    ResponderExcluir
  3. Eu quis conversar sobre esse tema, aproveitando um gancho no seu texto, porque queria entender qual é a concepção prática do mal no ponto de vista cristão. Por favor me entenda bem, minhas perguntas foram feitas partindo do pressuposto que você colocou: "o mal é a ausência de Deus". Logo, esse mal absoluto, que seria a ausência de Deus, é compreendido perfeitamente a partir dele. Só que o conceito "ausência de Deus" é que para mim não pode ser compreendido perfeitamente. O que é a ausência de Deus? É não seguir suas leis? Que leis? Se essas leis não ficarem bem definidas (e tome muito cuidado se você se referir ao decálogo como as leis de Deus, ele é MUITO discutível fora da situação cultural em que foi apresentado) o mal, a ausência de Deus e, por consequência direta, sua PRESENÇA, também não ficam bem definidos. Se isso não fica bem definido, um ponto importante da teologia fica em aberto.

    Vamos ver se a gente consegue enxergar um caminho juntos. Jesus, para os cristãos, parece ter dito (corrija-me, por favor) que bastavam duas leis: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo." Se for isso, fica mais fácil entender o que é mal, é só fazer a negativa: Mal é não amar a Deus sobre todas as coisas e não amar ao próximo nem a ti mesmo. Bem, voltamos ao problema anterior: se eu não amo esse Deus, que é o caso, eu sou mau? Praticar o bem ,ou seja, não praticar o mal, só é possível amando-se (e por conseguinte, crendo-se) o Deus cristão (visto que quem falou isso foi supostamente Jesus)?

    Um grande abraço.

    ResponderExcluir
  4. Bem, vamos então comentar sobre os conceitos de moral que você apresentou, a "moral evolucionária" e a moral absoluta. No caso da moral evolucionária, que vem da necessidade de preservação da espécie, eu concordo plenamente. Quanto à moral absoluta, sinto muito, mas preciso discordar. Por exemplo, o que o faz pensar que o exemplo que você utilizou: "torturar alguém por prazer é errado" não é explicado pela moral evolucionária? Vejamos, tortura é uma forma de agressão, certo? Ou seja, uma forma de infligir dano físico (ou psicológico, ou público, etc.) em alguém sem o consentimento dessa pessoa. Qualquer dano causa prejuízo, que pode ser parcial (a pessoa ferida tem menos capacidade de agir, trabalhar, viver, enquanto o dano não é reparado) ou total, morte. Em ambos os casos, a tortura age contra a preservação da espécie sim, independente de ser por prazer ou não (o prazer só torna o ato mais vil). Logo, por que não seria errado do ponto de vista da moral evolutiva? Há realmente algum caso que não se encaixe nessa categoria e seja de consenso geral?

    Quanto à crença cristã de que o ser humano tem a tendência de errar, eu também discordo. O ser humano tem tanta tendência a errar (causar prejuízo a si e aos outros) quanto a acertar (causar benefício a si e aos outros), não importando nesse caso se é consciente ou inconscientemente, por um motivo muito simples: ele não sabe a total consequência dos seus atos. Tudo que ele pode fazer é supor previamente baseado no seu conhecimento e intuição. Mesmo assim, só quando for algo premeditado. Quando for um impulso ou um reflexo físico ou psicológico, nem isso.

    Um grande abraço.

    ResponderExcluir
  5. Bem, são muitos questionamentos, vamos ver se eu consigo atender a todos.

    Primeiro, mais uma vez sobre "ausência" ou falta de Deus. Há um consenso geral sobre um dos atributos de Deus er a Onipresença, ou seja, poder estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Eu vejo isso de uma forma mais ampla: sendo o Deus axiomático imaterial e atemporal, ele não pode preencher lugar no espaço ou estar inserido dentro do contexto de tempo. Entretanto, seu conhecimento pode abranger cada ponto do espaço e cada instante de tempo. Se nós utilizássemos como pressuposto a onipresença, poderíamos dizer que é uma falácia existir "ausência de Deus" ou mesmo falta da sua presença. Talvez poderíamos fazer a mesma comparação com o calor, e dizer "o calor está em todos os lugares; mas pode estar mais concentrado em um lugar do que o outro", mas mesmo assim não fico satisfeito com essa analogia, porque estaríamos dizendo que Deus é equivalente a algum tipo de energia, e ao mesmo tempo se estaria pregando o panteísmo.

    Acho que a solução do problema é admitir que Deus concede algo especial da sua constituição às pessoas, algo que segundo a teologia cristã estaria naturalmente presente no ser humano (a imagem/semelhança de Deus) e esse algo foi perdido total ou parcialmente com a queda do homem. Assim, nenhum ser humano é essencialmente bom, todos somos "maus", temos a mesma tendência de cometer erros, apesar de ainda possuirmos a nossa consciência biológica. A ideia é sustentada por Paulo na Bíblia:

    "(...) Já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado;
    Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só.

    Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus.
    Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado.
    Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas;Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que crêem; porque não há diferença.
    Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus." (Rm 3.9-12, 19-24)

    Desde a queda do homem, Deus institui uma Lei, por que ela seria necessária? Porque antes a lei estaria no coração no homem, não seria necessária. Mas, sendo "destituídos da glória de Deus", perderam a velha natureza e "todos pecaram". Deus instituiu a lei apenas para que tivessem conhecimento do seu pecado, pois sem conhecer a lei, como saber que erramos? Entretanto, Deus prometeu desde o princípio dos tempos, que assim como por um homem o pecado veio ao mundo, por outro homem o pecado seria vencido. Tenho mais a falar sobre isso num post futuro, não deve ser tão em breve assim, mas se tiveres paciência...

    ResponderExcluir
  6. Sobre a moral absoluta, a questão não é achar um exemplo (desculpa, eu sou realmente péssimo em citar exemplos, é uma falha minha).

    A questão é que, se não há moral absoluta, existe apenas a moral relativa, e assim não há nenhum motivo verdadeiro para que uma coisa seja considerada errada. Só a garantia de preservação de espécie. Não há bem e mal e somos apenas animais estabelecendo o ciclo da vida, e a nossa existência fica sem um propósito maior. São muitas as implicações da não existência de uma moral absoluta, tantas que esse é um conceito quase que inato na sociedade humana. Nós sentimos quando algo que acontece não era pra estar acontecendo daquele jeito, se sentimos isso, é porque há um modo como as coisas deveriam ter ocorrido. Temos aí a nossa moral absoluta. Claro que isso não é aceito por muitos cientistas da atualidade, aliás estamos numa época onde a relatividade do certo e errado é pregada em todas as esquinas. Está virando algo de consenso geral, a "marca de Deus" em nós está se degradando aos poucos.

    ResponderExcluir
  7. Olá David. Obrigado por me responder.

    Não entrarei agora na questão teológica cristã do pecado da forma que você colocou e no final você entenderá por que. Mesmo assim, só para acrescentar, vale dizer que essa idéia de que o homem era uno com o divino e que, em algum momento, perdeu essa unidade, é universal em todas as culturas, dos gregos aos polinésios.

    Gostei muito do que colocou sobre como, dentro de nós, no fundo "sabemos" diferenciar o certo do errado. Também acredito que temos uma intuição moral que causa essa "estranheza" quando nos deparamos com algo que não soa bem, que não se encaixa. Eu, como você, também acredito que há algo "divino" nisso, pois parece estar no nosso espírito. Mas não concordo que, mesmo assim, isso venha de uma moral absoluta, não no sentido lato.

    Olha só, o que vou colocar agora é muito pessoal, é algo que descobri através de minhas próprias experiências e do que vejo nas pessoas que conheço. Ou seja, é totalmente passível de erros, mas tem funcionado muito bem e tem sido a receita da felicidade (felicidade mesmo, não alegria transitória) para mim nos últimos tempos. Essa moral interna que você diz que é absoluta, para mim não é porque, para mim, ela é pessoal e intransferível. Ou seja, o meu julgamento de bem e mal é diferente do seu e nós nunca poderemos achar que existe um julgamento único, seja ele divino ou o que quer que seja. Os hindus acreditam em um deus pessoal, tanto que a saudação deles é: “o deus que há em mim saúda o deus que há em você”. É nesse deus pessoal que reside essa moral interna e para cada um, particularmente, ela é soberana e absoluta.

    É por isso que o nosso bem não está no que nós QUEREMOS SER. Está muito mais no que nós PRECISAMOS SER que é diferente para cada um. Não cabe a mim nem a ninguém dizer para você o que é fazer o bem. Você é que deve descobrir isso por si mesmo. Deve perguntar para Deus, o seu Deus. As chamadas boas ações e mesmo a felicidade serão uma consequência imediata dessa descoberta do divino que há em si mesmo.

    Quando saímos do conceito de bem individual e vamos para o bem coletivo, caímos inevitavelmente na moral evolucionária, a que se baseia na sobrevivência da espécie. As duas andam juntas e se completam mutuamente. Se em algum momento elas parecerem se chocar, pode crer que a pessoa está na verdade bem longe tanto de uma moral quanto da outra.

    Eu não acho que hoje em dia as pessoas relativizam o certo e o errado porque a marca de Deus nelas está se degradando. Muito pelo contrário, acho que elas estão começando a perceber que essa marca está dentro, não fora. É natural, numa época de transição, um período de confusão. Cá entre nós, a moral da nossa sociedade foi oprimida tempo demais por aqueles que tachavam tudo fora da moral que eles criaram como pecado. As pessoas achavam que tinham que seguir padrões para serem boas, enquanto tudo que precisavam era olhar para dentro de si.

    Falando em pecado, pecar, para mim, é fugir DESSE deus pessoal. É sair da sintonia com ele. É falhar consigo mesmo. Isso não é egoísmo não, muito menos individualismo. Esse deus independe da nossa vontade (todas as vezes que tentava mandar no meu me ferrava feio). As coisas não são como o nosso ego quer, elas são como devem ser, como ESSE deus nos mostra. Os homens não são deuses, mas possuem uma ligação divina. Religião = Religare, lembra-se?

    Um grande abraço.

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...