sexta-feira, 15 de julho de 2011

O Problema do Mal (parte 6): INFERNO


 No próximo texto da série sobre o Problema do Mal, começaremos a discutir sobre a existência do Inferno e sua compatibilidade com a "infinita bondade" de Deus. Esse com certeza é o subtema mais esperado dessa série, por isso confesso que fiquei receoso de publicar algo sobre, tanto que adiei a publicação desse texto por muitos meses. Foi muito tempo de leitura e pesquisa.
Vou logo avisar que, como sempre, não pretendo dar a palavra final sobre o assunto, muito menos expressar uma visão oficial de todas as igrejas cristãs sobre o assunto, em vez disto vou procurar dissertar sobre o tema de forma independente, atacando preferencialmente alguns pontos-chave que costumam ser o argumento final de muitos ateus contra a existência de Deus. Muito provavelmente este texto terá que ser dividido em algumas partes.
Mas afinal, o que exatamente é o inferno?

Há muita confusão, inclusive entre os próprios cristãos, sobre a doutrina do inferno. Isto faz com que a confusão entre os que acusam os cristãos seja maior, e critiquem uma ideia que conhecem superficialmente. Bem, para falar de inferno, vou ter que falar um pouco de soteriologia, o que eu queria evitar aqui no blog, pelo menos por enquanto. Soteriologia é a doutrina da salvação, e ela diz que todo homem, indepedente de seus atos ou caráter, precisa dela. A natureza corrompida pelo pecado (e não a culpa do pecado original, é preciso que se entenda isso!) foi transmitida a todos nós, descendentes genéticos do humano primordial, a quem a Bíblia refere-se como "Adão". Essa é a parte aceita pela maioria dos que se dizem cristãos (e que encontra maior fundamento bíblico). Quam acompanhou o artigo anterior sobre a Queda do homem deve estar mais ou menos a par do que estou falando (senão, vá ler a Bíblia! Gn 3, Rm 3-6).

A consequência para o pecado na Bíblia é a morte (Rm 6.23), sendo que a morte é vista como uma separação. O pecado original separou o homem de Deus da ligação natural que dantes tivera, mas ainda havia como se religar (daí a palavra "religião"), o plano de Deus para isso já fora estabelecido: Ele próprio pagaria a pena pelos nossos erros! (Ou seja, Deus, através de Jesus, morreu para pagar a nossa pena e nos tornar novamente aceitáveis diante dEle). Na verdade, como lemos em Romanos, a morte de Jesus é um contraponto ao pecado de Adão, e não aos pecados da humanidade. Isso quer dizer que Deus golpeou a causa da nossa condenação, mas não acabou (ainda) com as consequências do erro: nós ainda possuímos a natureza humana corrompida (aliás, o mundo está cada vez pior...).

Depois dessa resumidíssima introdução à soteriologia, agora já tenho base suficiente para falar sobre o inferno. A palavra vem do latim "infernus", que quer dizer 'inferior'. Esta palavra foi introduzida da forma como conhecemos hoje pela tradução latina, os termos originais que temos são o hebraico "Sheol" e os gregos "Hades" e "Geena". Sheol e Hades são equivalentes, seriam em português algo como "sepultura", "além", "mundo inferior", e representa o "lugar" (não é necessariamente um lugar físico) para onde vão os mortos. Já Geena é encontrado no Apocalipse, e é o conhecido "lago de fogo", que é inaugurado só depois do Juízo Final.

Nota-se que a Bíblia faz diferença entre os dois lugares. Por isso é errado dizer que "uma pessoa que morre vai para o inferno". Pelo menos sem que se esclareça: para qual inferno? Essa palavra representa pelo menos dois lugares distintos entre si.

No Velho Testamento (e até antes da morte de Jesus), vemos o Sheol sendo retratado como o único destino para os mortos, que ficavam aguardando. Jesus ao morrer paga a dívida dos que creram nEle e leva os justos no Sheol para o Paraíso (Lc 23.43, diga-se de passagem que também não é o mesmo Paraíso ou Céu descrito no Apocalipse, que também só será inaugurado depois do Juízo Final). Daí, o Sheol, ou Hades, tornou-se lugar exclusivo dos mortos que não creram no sacrifício de Jesus, rejeitando assim a paga dos seus pecados e aguardando o juízo que virá (Hb 9.27).

Concluindo, o inferno pode ser entendido como o cumprimento da consequência final do pecado: a separação definitiva de Deus. Começando pelo Hades, e indo até o Geena. Pois estes lugares possuem e simbolizam tudo o que não está em Deus: maldade, sofrimento, trevas, mentira, etc. O simples fato de ser um lugar onde o Amor e a Misericórdia de Deus não podem mais estar presentes, já torna o inferno o pior dos lugares que pode existir.

Achei um texto no site "ateus do brasil" que mostra o quanto muitos ateus são parcialmente ignorantes sobre o assunto, e refutam uma ideia de inferno que já está previamente distorcida. Desde quando comecei a escrever este texto, minha intenção era refutar o texto parágrafo por parágrafo, mas acho que vou fazer melhor comentando apenas alguns pontos-chave e me concentrando em questões principais. Farei isso na próxima parte do texto (se colocar aqui, vai ficar muito grande...).

Abraços, Paz de Cristo! Até a próxima!

3 comentários :

  1. "Deus tem um plano justo para julgá-los, que para nós não é totalmente revelado"
    Então como sabes ser justo?

    "E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado." Marcos 16.15-16

    Isto não vai contra?
    "ninguém pode ser condenado por Deus se for inconscientemente ou desinformado."

    Que sentido de justiça há em condenar um ateu, que tem perfeita consciência de o que é a vossa crença mas que não acredita?

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  2. nmhdias,
    "Então como sabes ser justo?"
    O meu texto argumenta contra a incompatibilidade da bondade/justiça de Deus com a existência do inferno. Não foi a minha intenção provar que Deus é infinitamente justo, isto parte de outros argumentos e está pressuposto. Se quer refutar o meu texto, refute o que foi falado. O que você fez foi mudar o foco do debate ou cometer a famosa falácia "Olha o avião".

    "Isto não vai contra?"

    Este versículo sumariza perfeitamente a soteriologia cristã: aqueles que crêem tornam-se capazes de aceitar o perdão de Deus, enquanto os que não acreditam não tem como receber o perdão e são inevitavelmente mortos pelos seus próprios pecados. Note que tanto os que crêem quanto os que não crêem são passíveis de pecarem, mas é preciso reconhecer-se pecador e aceitar o perdão para ser perdoado.

    "Que sentido de justiça há em condenar um ateu, que tem perfeita consciência de o que é a vossa crença mas que não acredita?"

    Leia a continuação do texto (parte 7), lá você encontra o argumento da prisão, que eu formulei, e possivelmente sanará esta dúvida. Em suma, o fato de você acreditar ou não é irrelevante ao que as regras dizem.

    Abraços, Paz de Cristo.

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  3. "Se quer refutar o meu texto, refute o que foi falado. O que você fez foi mudar o foco do debate ou cometer a famosa falácia "Olha o avião"."

    Tens toda a razão mas não achei interesse no que foi escrito e puxei um tema de meu interesse. Não consigo tirar muitas conclusões/refutações de um conceito tão vago como o inferno para mais sem acreditar que existe.

    "Em suma, o fato de você acreditar ou não é irrelevante ao que as regras dizem."

    Concordo totalmente. Esta é a única forma possível de discutir alguns aspectos em p.e. a teoria da evolução.

    Puxando novamente para o tema de meu interesse, quando alguém tira uma qualquer ilação de "darwinismo social" poder-se-á achar bem, mal ou assim-assim.
    Mas o mesmo julgamento para Deus não ocorre, porquê? Porque nunca se encontra julgamentos morais sobre Deus, feitos por cristãos?

    Ou seja, há algum problema em acreditar na existência de Deus mas não acreditar nos valores morais que ele transmite (pela leitura da bíblia)? Tu serias capaz de o fazer?

    Quanto à parte 7, li. Trata de mais interpretações sobre o inferno/salvação, não duvido que faças análises interessantes, simplesmente os meus conhecimentos/interesse não vão tão longe.

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