sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O Problema do Mal, Parte 8: INFERNO (outras questões)


 Resolveremos as pendências de responder algumas questões que ficaram sobre o assunto Inferno, em relação ao caráter de Deus.

Seria a existência do Inferno, como punição infinita,  incompatível com a justiça infinita de Deus, dado que pecamos um número finito de vezes?

 Já comentamos sobre a incompatibilidade entre o amor de Deus e a existência do inferno. Dado isto como esclarecido, poderíamos imaginar uma outra questão. Pode não ser injusto existir um inferno, mas precisava ser eterno? Sabemos que por termos uma vida física com duração finita, logo cometemos um número finito de pecados. Seria então injusto dar aos humanos que rejeitam a salvação uma punição infinita?

Existe uma doutrina defendida por uma minoria cristã chamada universalismo. Ela prega simplesmente que, no fim, todos serão salvos. Se existir inferno, será temporário, e após as pessoas terem pagado sua pena, poderão desfrutar do "céu". Embora seja uma doutrina mais confortável de se imaginar, ela não está de acordo com o que a doutrina cristã tradicional e a Bíblia ensinam. Outra saída possível para essa pergunta é a doutrina do aniquilacionismo, que prega que os condenados ao inferno simplesmente deixarão de existir. Visto que esta "doutrina" só surgiu em meios controversos de minoria, e só no século XIX, é muito improvável que esta também esteja correta (além de ter uma base bíblica questionável). Descartando a princípio estas duas respostas, ainda temos como fazer algumas objeções à proposição de que uma punição infinita é injusta ao pecador, que veremos a seguir.

Uma possibilidade não tão sofisticada de resposta ao argumento da condenação inifinita por pecado finito é que é incrível ver como Deus nos recompensa com algo infinitamente bom (a vida Eterna) simplesmente por um preço tão pequeno quanto acreditar nEle. Não existe maior expressão de amor. Como resultado de sua justiça, a recompensa infinita é contrastada pela "condenação" infinita. Se não houvesse a condenação, não saberíamos do que estamos sendo salvos, daí não haveria uma ideia clara sobre salvação, não haveria o conceito de opostos, seria um pouco confuso. 

Além disso, poderia existir uma diferença entre "a soma de todos os nossos pecados" e  "todo o nosso pecado". Isso é baseado no ponto de vista holístico, onde "o todo pode ser maior ou mais complexo que a soma das partes". O fato de um número finito de falhas merecer uma punição finita não implica diretamente que as falhas de alguém juntas como um todo mereça uma punição finita.

A terceira possibilidade de resposta a essa pergunta é que, uma vez no inferno, a reação mais natural do indivíduo poderia ser raiva e ódio contra Deus, que o colocou lá, em vez de arrependimento (lembre-se que remorso é diferente de arrependimento!). Daí, a pessoa continuaria pecando, mesmo no inferno! Isto quer dizer que quanto mais tempo o réu passa lá, mais punição ele está gerando para ele mesmo. Daí, a punição no inferno se tornaria perpétua em si própria. O inferno estaria, como disse o filósofo John Paul Sartre, "trancado de dentro". Isso me lembra um trecho de Apocalipse, em que são descritos homens que mesmo conhecendo de perto a condenação e a ira de Deus, continuam o odiando e não se arrependendo de seus pecados:
"O quarto anjo derramou a sua taça no sol, e foi dado poder ao sol para queimar os homens com fogo. Estes foram queimados pelo forte calor e amaldiçoaram o nome de Deus, que tem domínio sobre estas pragas; contudo se recusaram a se arrepender e a glorificá-lo.
O quinto anjo derramou a sua taça sobre o trono da besta, cujo reino ficou em trevas. De tanta agonia, os homens mordiam a própria língua, e blasfemavam contra o Deus do céu, por causa das suas dores e das suas feridas; contudo, recusaram-se a arrepender-se das obras que haviam praticado." Ap 16.8-11
Ainda é possível olhar o pecado em si sob outro aspecto, a saber, um ato contra o próprio Deus. Lembre-se que Deus veio ao mundo pagar a dívida por nossos pecados. Assim, quando não aceitamos a Deus, não só estão sendo computados os pecados corriqueiros de nossa vida, mas sim também o fato de rejeitar e desconsiderar o grande Plano de Redenção proposto por Deus, o que parece ser uma falha de proporções muito maiores. É um princípio do direito clássico o fato de que o grau e a duração de uma pena são diretamente proporcionais ao nível de dignidade e valor do objeto contra o qual se cometeu o delito. Por exemplo, há uma diferença entre tipo e duração de pena entre roubar um animal de estimação, roubar um carro ou roubar (sequestrar) uma pessoa. Do mesmo modo, um pecado ou ofensa contra Deus, que é infinito, poderia merecer uma punição infinita.

A quinta e última resposta possível à objeção ateísta neste quesito é que o inferno não é exatamente como muitos pensam: um lugar onde há demônios-carrascos te atormentando contra a sua vontade. Na verdade pensando dessa maneira realmente parece um lugar injusto. Mas a Bíblia fala que os próprios demônios também serão atormentados lá! O verdadeiro tormento, ou punição do inferno é (como já disse repetidas vezes aqui) a separação de Deus. Essa é a pior coisa que pode existir no Universo. E separados dEle, não temos nenhuma capacidade de discernir ou fazer o bem. Somos atormentados pelas nossas próprias imperfeições. Pense em um viciado em drogas, que apesar de sofrer terrivalmente, não consegue (e muitas vezes não deseja) abandonar seu estado auto-destrutivo.

É possível ser feliz no céu?

Essa pergunta parece a princípio óbvia, mas acreditem, muitos ateus questionam o modelo cristão de Paraíso. Ou pelo menos o modelo cristão medieval. As pessoas idealizavam o céu como um lugar onde havia o ascetismo e o ócio, assim como nos mosteiros medievais. Os habitantes celestes ficariam eternamente tocando harpas ou cantando Hinos de louvor a Deus nos corais... hoje em dia qualquer um acharia essa proposta de paraíso no mínimo entediante. Precisamos entender que o conceito de lugar paradisíaco muda muito conforme a cultura e o tempo, assim não podemos basear o Paraíso na concepção de como deve ser, e sim no máximo no que a Bíblia diz de como será. 

Mas aí surgem mais objeções ateístas: diz a Bíblia "E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas." (Ap 21.4), mas como poderíamos ser felizes sabendo que há possivalmente parentes nossos que não estão ali, mas sim sofrendo no inferno? Com um mínimo de raciocínio e desfazendo algumas premissas ocultas desta pergunta, refutamos a objeção. Primeiro, não temos certeza se na vida eterna teremos lembrança das pessoas que viveram conosco, nem se saberemos se elas foram para o inferno ou não; segundo, não temos certeza se laços de parentesco ou de amizade se manterão lá (mas temos alguns motivos para acreditar que não: Lc 20.34-36), ou se seremos simplesmente todos uma só família, irmãos, filhos de Deus; terceiro, estaremos com Deus finalmente face a face, teremos comunhão plena. Poderemos compreendê-lo um pouco mais, e quem sabe seremos capazes de entender e aceitar o destino que foi reservado a estes outros.

Como última observação, só gostaria de esclarecer o uso da palavra "céu" como o lugar onde viver-se-á a vida eterna. Eu prefiro o uso do termo "Paraíso", ou qualquer outro, pois "céu" (devem ter percebido que quase sempre uso este termo entre aspas) é um tanto quanto inadequado. Lê-se no Livro do Apocalipse que Deus renovará o céu e a Terra, e viveremos nesta nova terra. A confusão com o nome céu acontece porque simbolicamente nos referimos ao lugar onde Deus "habita" (Ele não ocupa lugar no espaço!) de céu, visto que está além do alcance humano. E muitos acreditam que os que morrem vão para o lugar onde Deus habita, o tal "céu". Até pode ser, mas este não é o mesmo lugar em que viverão os salvos após o juízo final. É a mesma distinção que eu fiz entre os dois tipos de inferno, na primeira parte da série (nossa, vocês nem devem lembrar!).

Estaria Deus certo em castigar Adão e Eva?

Este trecho pretende esclarecer possíveis pendências ou dúvidas deixadas na Parte 5 desta série de postagens. Alguns ateus poderiam afirmar que Deus não poderia castigar Adão e Eva por terem desobedecido, visto que o ato que cometeram foi provar do fruto do conhecimento do bem e do mal: eles não tinham noção de bem e mal antes, portanto não eram responsáveis pelos seus atos! Pobre Adão - diria o ateu.

É verdade que o ser humano, segundo a Bíblia, vivia em um estado de inocência antes de conhecer o pecado, mas isso não implica em não saber absolutamente nada sobre certo e errado. Eles poderiam ser inocentes só em algumas coisas, como por exemplo andavam nus sem se constranger. Provavelmente eles conheciam a Lei Natural (vou falar sobre isso na próxima questão), que é a consciência moral mínima que todos nós temos. Se não fosse assim, Adão poderia matar, roubar, agredir fisicamente sem nunca ser punido. E mesmo que não tivessem conhecimento moral, é certo que tinham conhecimento intelectual, já que foram criados à imagem de Deus (Gn 1.28), e poderiam raciocinar que era melhor confiar na palavra de Deus, que é perfeito, do que de uma serpente.

Outra coisa sobre essa questão é que eu acho no mínimo inadequado pensar na queda do homem como se fosse um "castigo". Deus ao advertir Adão e sua esposa de não comerem o fruto parecia estar os protegendo de uma consequência inevitável (o pecado enquanto falha moral inevitavelmente separa o homem de Deus), do mesmo jeito que um pai adverte uma criança a não comer certo tipo de fruta silvestre que é venenosa. O pai não castiga a criança por ter comido, a própria criança sofre a consequência inevitável do ato.


O que acontece com aqueles que nunca ouviram falar de Jesus ou do Evangelho?

Esta pergunta eu vou deixar para o próximo post (que provavelmente será o último da série). Este já está muito grande, além disso sempre é bom fazer um pouco de suspense. :P

Até a próxima, pessoal!
Abraços, Paz de Cristo.

Referências:

Essas referências valem para este e o próximo post, e são os textos em que me baseei para escrevê-los (além dos textos bíblicos). Faço uma menção especial ao texto do WIlliam Craig (já devem saber que sou um fã dele!), que aborda todos os detalhes que escrevi aqui sobre o inferno de maneira bem sucinta.

Ayan, Luciano - Um Poço de Estupidez: Cristina Rad e seu show de ferocidade
http://teismo.net/quebrandoneoateismo/2010/09/19/um-poco-de-estupidez-cristina-rad-e-seu-show-de-ferocidade-parte-i/
http://teismo.net/quebrandoneoateismo/2010/09/21/um-poco-de-estupidez-cristina-rad-e-seu-show-de-ferocidade-parte-ii/

Craig, William L. - Poderia um Deus amoroso mandar pessoas para o inferno? 
http://www.apologia.com.br/?p=54

Campos, Anchieta - E os que nunca ouviram falar do Evangelho?
http://anchietacampos.blogspot.com/2008/06/e-os-que-nunca-ouviram-o-testemunho-do.html

Pinheiro, Vinícius - O Problema do Inferno Eterno
http://filosofiaeapologtica.blogspot.com/2010/09/o-problema-do-inferno-eterno.html

(Parte 9)

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