segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Ensaio de C. S. Lewis sobre o inferno


Mais uma parte da longa série de postagens sobre as considerações de C. S. Lewis sobre vários assuntos relacionados ao Problema do Mal. Realmente o livro "O Problema do Sofrimento" merece ser lido, e graças ao Respostas ao Ateísmo vocês podem desfrutar um pouco dele. O assunto de hoje é recorrente aqui no blog, por isso evitei repetir questões que já foram propostas acerca do inferno aqui no blog. Vocês podem ler mais sobre inferno aqui, aqui e aqui.


Abraços, Paz de Cristo.
Sobre ao intenso sofrimento do inferno, classificado pretensiosamente como injusto - o inferno em três aspectos

Uma (...) objeção [à doutrina cristã do inferno] se concentra na terrível intensidade das penas do inferno como sugerido pela arte medieval e, sem dúvida,  por algumas passagens das Escrituras. Von Hügel nos adverte aqui para não confundirmos a doutrina em si com as imagens mediante as quais é transmitida. Nosso Senhor fala do  inferno sob três símbolos: primeiro, o do castigo ("castigo eterno" Mt 25:46); segundo, da destruição ("temam apenas a Deus, que pode destruir no inferno a alma e o corpo juntos" Mt 10:28); e terceiro, da privação, exclusão e expulsão paia as "trevas exteriores", como nas parábolas do homem que não tinha as roupas do casamento ou a das virgens sábias e das tolas. A imagem predominante do fogo é significativa porque combina as noções de tormento e destruição. É, porém, praticamente certo que todas essas expressões têm na verdade a intenção de sugerir algo indiscutivelmente horrível, e qualquer interpretação que não enfrente esse fato estará, conforme receio, errada desde o princípio. Não é, entretanto, necessário concentrar-se nas imagens de tortura, excluindo as que sugerem destruição e privação. O que pode ser então aquilo de que as três imagens são símbolo? A destruição, podemos naturalmente presumir, significa a eliminação ou aniquilação dos destruídos. E as pessoas falam com freqüência como se a "aniquilação" de uma  alma fosse possível. Em nossa experiência, porém, a destruição de uma coisa significa a emergência de outra. Queime um pedaço de madeira e terá gases, calor e cinzas. Ter sido um pedaço de madeira significa agora ser essas três coisas. Se a alma pode ser destruída, não haverá um estado de ter sido uma alma humana? E não é esse, talvez, o estado que é  igualmente bem descrito como tormento, destruição e privação? Você estará lembrado de que, na parábola, os salvos vão para um lugar preparado para eles, enquanto os perdidos vão para um lugar que não foi absolutamente feito para homens. (Mt 25:34,41) Entrar no céu é tornar-se mais humano do que jamais alguém o foi na terra; entrar no inferno é ser banido da humanidade. O que é lançado (ou se lança) no inferno não é um homem: são "refugos". Ser um homem completo significa ter as paixões obedientes à vontade e essa vontade oferecida a Deus: ter sido um homem – ser um ex-homem ou um "fantasma perdido" - iria presumivelmente significar consistir de uma vontade completamente voltada para o Eu e paixões não controladas pela vontade. Torna-se, naturalmente, impossível imaginar com o que a consciência de tal criatura – já então um agregado indefinido de pecados mutuamente antagônicos em lugar de um pecador - poderia comparar-se.

Pode haver grande parte de verdade no ditado: "o inferno é  inferno, não de seu próprio ponto de vista, mas do ponto de vista celestial". Não acredito que isto interprete mal a severidade das palavras  de Nosso Senhor. Somente aos condenados é que seu destino poderia parecer menos do que insuportável.  E deve ser admitido que, nestes últimos capítulos, à medida que pensamos na eternidade, as categorias de dor e prazer, que nos prenderam por tanto tempo, começam a retroceder, enquanto bens e males mais vastos surgem no horizonte. Nem a dor nem o prazer como tais têm a última palavra. Mesmo se fosse possível que a experiência (se pode ser chamada assim) dos perdidos não contivesse dor mas muito prazer; ainda assim, esse prazer negro seria de um tipo tal que faria qualquer alma, ainda não condenada, voar para as suas orações num terror de pesadelo: mesmo que houvesse sofrimentos no céu, todos os que têm entendimento os desejariam.

Sobre a consciência dos salvos acerca da existência dos condenados

Uma (...) objeção é que nenhum homem caridoso poderia considerar-se abençoado no céu enquanto soubesse que uma única alma continuasse ainda no inferno; e se for assim, somos então mais misericordiosos que Deus? Por trás dessa objeção existe uma imagem mental de céu e inferno coexistindo numa época unilinear como coexistem as histórias da Inglaterra e América: dessa forma a cada momento os bem-aventurados poderiam dizer: "As misérias do inferno estão agora continuando". Mas eu noto que Nosso Senhor, embora enfatizando os terrores do inferno com grande severidade, no geral não destaca a idéia de duração, mas de finalidade.

A entrega ao fogo destruidor é geralmente tratada como o fim da história e não como o começo de outra nova. Não podemos duvidar  que a alma perdida esteja eternamente fixada em sua atitude diabólica; mas se esta fixidez eterna implica numa duração sem fim - ou que dure mesmo - não podemos dizer. O Dr. Edwyn Bevan faz algumas especulações interessantes sobre este ponto. (Symbolism and Belief, pág, 101.63) Sabemos muito mais sobre o céu do que sobre o inferno, pois o céu é o lar da humanidade e portanto contém tudo o que está implícito numa vida humana glorificada: mas o inferno não foi feito para homens. Ele não é de forma alguma paralelo ao céu, mas a "escuridão lá fora", a borda externa em que o ser se desvanece no nada.

Sobre a não-salvação de grande parte da humanidade

Finalmente, é objetado que a perda final  de uma única alma significa a derrota da onipotência. E assim é. Ao criar seres com livre-arbítrio, a onipotência desde o início se submete à possibilidade de tal fracasso.  O que você chama de derrota, eu chamo de milagre: pois fazer coisas que não são Ele mesmo, e tornar-se assim, num certo sentido, capaz de sofrer resistência por parte das obras de suas próprias mãos, é o mais surpreendente e inconcebível dos feitos que atribuímos à divindade. Acredito realmente que os perdidos são, de certa forma, rebeldes bem sucedidos até o fim; que as portas do inferno são fechadas por dentro. Não quero dizer que os fantasmas não desejem sair do inferno, da maneira vaga como uma pessoa invejosa "deseja" ser feliz: mas eles certamente não querem nem sequer os primeiros estágios preliminares daquele auto-abandono através do qual a alma pode alcançar qualquer bem. Eles gozarão para sempre da horrível liberdade que exigiram, e são portanto auto-escravizados; da mesma maneira que os justos, para sempre submissos à obediência, se tornam através de toda eternidade cada vez mais livres.

A longo prazo, a resposta a todos os que se opõem à doutrina do inferno é, em si mesma, uma pergunta: "O que você está querendo que Deus faça?" Apagar os pecados cometidos por eles no passado e permitir-lhes um novo começo, alisando toda dificuldade e oferecendo toda ajuda milagrosa? Mas Ele fez isso, no Calvário. Perdoá-los? Não podem ser perdoados. Abandoná-los? Sim, tenho medo de que é justamente isso que Ele faz.

11 comentários :

  1. É verdade que tudo se transforma e nada deixa simplesmente de existir. Mas a morte há qual as escrituras se referem creio que seja um caminho sem volta, pois quem foi condenado ao inferno, depois disso não poderá voltar à Deus. Abominado por Deus permanentemente, e consequentemente Deus estará sempre longe desse condenado, impossibilitando qualquer possibilidade de redenção. O sofrimento, seria é uma prova de que a alma não será destruida ou morta no sentido exato da palavra. Ora, se algo é ou alguem é destruido como isso ou esse poderia sofrer algum dano depois ? O homem perderá a sua semelhança com Deus e poderá tornar-se como uma consciencia sem corpo físico ou espirtual, uma condição que o permitiria usufruir de capacidades intelectuais mas não motoras, não podendo também alterar o seu ambiente. Preso aos valores materiais como o dinheiro, como poderia ele no inferno ter dinheiro ou comprar algo? Só essa condição em si para uma pessoa avarenta, já seria um sofrimento e se for essa condição permanente, entao o sofreria ela eternamente.

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    1. Perfeita observação, caro anônimo. Pena que não se identificou.

      Abraços, Paz de Cristo.

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  2. Poxa, gostaria muito de poder me expressar de uma forma , clara , objetiva sobre esse assunto. Mas não consigo! Por uma séria de coisas.
    Acredito em Deus e no plano da redenção. A credito que um dia estaremos diante de Deus e do seu trono, somente eu e Ele, cara a cara, como se num susto, me desse de frente com aquela pessoa que devo muito ou daquela pessoa que sabe de algum segredo cabeludo meu e de repente "topasse" com ela sem querer, e não tendo condições de me esquivar, fugir , desaparecer da li. - ".......iiih agora paciência, estou aqui diante de você."
    Ser julgado, condenado , pronto ou não em pagar o que devo. E agora?
    Posso achar misericordia por parte da pessoa e ela passar por mim , até me comprimentar e fazer passar batido a divida, e eu simplesmente engolir a seco o alivio, mesmo vendo que no olhar ela diz : - " ...Eu sei que você fez, mais deixe quieto" .
    Dever ser uma sensação de alivio, do tipo , subir 4000 metros descer em dois segundos, e ver que nada aconteceu de ruim.- "...Ufa, passou , nem vi."
    Nada deixou de existir,mas me foi oculto.
    Nada deixou de existir,e me foi apontado.
    Perdi...como viver...como controlar minhas emoções, sentimento de culpa por deixar passar uma oportunidade de ter resolvido o problema antes,mas por algum motivo, ego, prazer, independência própria , rebeldia e tantos outros adjetivos semelhantes que nem sei quais seriam.
    Sendo condenado , qual seria minha dor, meu peso , meu sofrimento?
    Viver queimando? apodrecendo? me lamentando ? vendo os outros lamentar e apodrecer diante de mim, tais como familia, amigos, parentes?
    Isto seria o inferno?
    Nada de fogo , chifres, perseguições? somente os porques?

    bem, eu sei que não estou sendo claro neh? hahahahaha, mas pra mim exite a clareza e até encontro respostas pra algumas questoes que estao muito pendentes na minha pobre e desperdiçada vida.

    Preciso da Graça que Deus oferece para entender e ter uma atitude.
    Porque se não, qualquer dia irei sem querer " topar" com alguem .

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    1. Realmente, caro Fábio, você não foi muito claro... mas suas reflexões sobre o assunto parecem ser profundas.

      Abraços, Paz de Cristo.

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    2. hahahahahaa, bem , mais tentarei ser claro pode deixar, mais soh uma pergunta, qual parte que ce nao entendeu? , seria tudo?

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    3. Não sei... o texto não pareceu muito coeso pra mim... afinal, o que você quis dizer com tudo isso no final?

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    4. poxa, tipo... gostaria de que vc pudesse entender...mais eh meio dificil colocar minha ideias no papel hj em dia pq conta de inumeros remedios que tomo, mexem com o sistema nervoso. mais tipo, vou pedir pra alguem me ajudar e fazer uma sinteses rapida, quem sabe eu sja mais claro.
      shalon

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  3. Respostas
    1. Caro Anônimo,

      obrigado pela observação crítica.

      Abraços, Paz de Cristo.

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  4. ótimo post, é aceitável, a ideia, que Deus de certo modo abriu mão de sua onipotência, dando ao homem o livre arbítrio, mais não é aceitável, a ideia, que esse homem um dia precise da intervenção da onipotência de Deus, quando o mesmo homem saberia a consequência dos seus pecados, a morte aqui seria total afastamento de Deus, pois Deus não mais poderá interferi no assim por dizer "castigo", pois, o livre arbítrio, vai mais além de escolher o "bem" ou o "mal", é assumir consequências!

    é um assunto muito profundo e ainda um tanto obscuro
    mais fico grato pelo post, e espero mais sobre esse assunto.

    obrigado. A Paz de Cristo.

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