quarta-feira, 23 de março de 2016

[Problema do Mal] Refutando "O Guia Fácil e Rápido para desarmar um Religioso"


Olá, leitores.

A imagem acima circula na internet há algum tempo. Ao verificar a fonte, vi que trata-se de um blog de humor (de péssimo gosto, aliás). Eu tenho uma opinião sobre humor: ele não foi feito pra ser refutado, é apenas humor. É pra rir ou pra ignorar. Portanto, minha atitude padrão ao ver essa imagem seria simplesmente ignorar e continuar navegando na internet.

Entretanto, pela compaixão que tenho aos meus leitores menos experientes, que podem se sentir confusos ao se deparar com uma imagem como esta, me senti motivado a analisá-la segundo o que a filosofia e a teologia cristã realmente ensinam.

Eu poderia desde o início expor os pressupostos ocultos e falsos da imagem, ou ainda expor a questão sobre o problema do mal de um modo mais sistemático, que naturalmente eliminasse os paradoxos expostos na figura. Mas, para ser mais divertido, vamos seguir as setas nas linhas de raciocínio sugeridas na imagem. Para aqueles que querem uma análise mais aprofundada do assunto, aqui mesmo no blog você encontra material relativamente abundante, bastando procurar pela tag [Problema do Mal].
Começando:

1. O Mal existe?

SIM, disso não há dúvida. Não está especificado na imagem, mas também se pressupõe que Deus existe, com a intenção de mostrar que isto levaria a uma contradição. As contradições estariam relacionadas com certos atributos de Deus, a saber: onipotência, onisciência ou perfeição. Veremos isto mais adiante.

Aliás, vale lembrar que para um ateu, a resposta aqui deveria ser "NÃO". Isto porque o ateu não acredita em Deus, e se Deus não existe, o bem e o mal não existem de forma absoluta, eles são apenas convenções que a sociedade produz. Para um ateu, então, nem vale a pena prosseguir, porque o paradoxo se resolve antes de o propor. Para o teísta, Deus existe, e portanto o mal existe. Mas isso implica em algum tipo de contradição? Veremos a seguir.

2. Deus pode derrotar o mal?

Temos que dizer que SIM, porque Deus é onipotente, embora seja preciso analisar o que de fato isso significa. Onipotência é, como o nome já diz, um poder absoluto, ou o maior poder possível. Deus tem poder para criar a própria realidade e para destruí-la, se quiser. Ele tem o poder pra fazer certas coisas que, aos nossos olhos ou segundo a nossa capacidade, são impossíveis. Entretanto, note que apesar de que algumas coisas nos são impossíveis porque nos falta poder para tal, outras são simplesmente impossíveis porque não fazem nenhum sentido. Por exemplo, quanto poder é necessário para criar um triângulo de quatro lados? Não importa quanto poder você tenha, isso nunca será criado porque o conceito de um "triângulo de quatro lados" é autocontraditório. A onipotência não inclui criar absurdos lógicos, simplesmente porque absurdos lógicos não são objetos realizáveis, mas apenas uma sequência de palavras que não faz sentido. Vale notar que, se assumíssemos que Deus é capaz de quebrar as leis da lógica, então deveríamos abandonar qualquer tentativa de racionalizar o comportamento de Deus, porque a nossa própria razão é construída sobre os princípios da lógica. E teríamos que admitir absurdos como "Deus pode existir e não existir ao mesmo tempo", "Deus é onipotente e não é ao mesmo tempo" e coisas do tipo, que por exemplo quebram o Princípio da Identidade (que pode ser resumido como "A" = "A").

3. Deus sabe sobre o mal?

SIM. Deus é onisciente, ou seja, tem conhecimento absoluto, sabe toda a verdade que há para saber no Universo. Sabe o passado, o presente e o futuro porque Ele mesmo não está preso à limitação do tempo.

4. Deus quer derrotar o mal?

Deus é perfeito, como já dissemos. Ele é a fonte da perfeição, do bem, da pureza, da santidade e da justiça. Sendo assim, um mundo que está imerso eternamente no mal não pode ser agradável a Deus. Então é agradável a Deus, SIM, eliminar o mal.

5. Então, porque o mal existe?

Aqui é que o negócio começa a complicar. Chegamos ao cerne da questão, que é o Problema do Mal. Isto pode ser respondido de várias formas, e se vocês lerem os outros textos do blog sobre o assunto, vão poder se aprofundar nas possíveis respostas. O autor da imagem dá três respostas possíveis. Vamos seguir cada uma delas e examinar as consequências de cada uma.

a) O mal existe para nos testar:  Se Deus é onisciente, não precisaria nos testar.

Se escolhêssemos essa resposta, que afinal é uma resposta possível, o autor tenta colocar em xeque um dos atributos de Deus, levando a uma contradição. Mas será mesmo que um Deus onisciente não "precisa" testar suas criaturas?

Este é um engano comum. Pegue o exemplo de Abraão - Deus pede que Abraão sacrifique o seu único filho, Abraão aceita e no último momento Deus interrompe Abraão e diz que era apenas um teste. Por Abraão ter passado no teste, Deus dá muitas bençãos a ele. A história está no capítulo 22 de Gênesis. Ém uma análise ingênua, somos certamente levados a pensar: "Mas porque Deus teve que fazer isso com Abraão, se Deus já sabia o resultado do teste?" A resposta não é difícil: tempo. Vou explicar melhor.

Por um momento, imagine a história como o descrente gostaria que fosse: um belo dia, Deus chega de repente a Abraão e concede incontáveis bençãos. Abraão, então, pergunta: "Por que estás me concedendo estas bençãos, Senhor?". E Deus responde: "Porque eu ia te passar por um teste, mas como eu sei que você já seria aprovado, estou te dando a recompensa desde já". Agora pense por um instante. Isso não seria, no mínimo, estranho? Abraão, assim como qualquer ser humano, é um ser temporal. Está sujeito ao tempo. E como tal, ele espera que as coisas aconteçam numa sequência que pode ser compreendida. Deus, apesar de ser atemporal, precisa fazer as coisas do jeito temporal para se relacionar conosco, enquanto seres temporais. Caso contrário o mundo seria incompreensível. Várias coisas que acontecem não teriam causas num mundo real, mas apenas num pensamento de Deus sobre o que teria acontecido, mas de fato não aconteceu. Por isso, Deus seria de certa forma injusto de recompensar Abraão se este não tivesse sido realmente testado e aprovado. A recompensa seria um efeito sem causa real (isto é, sem causa concreta dentro do mundo real). Além disso, ainda há o fato de que, muitas vezes, o objetivo de um teste ou provação não é saber qual é o resultado, mas sim promover uma transformação na pessoa. Aquele acontecimento, certamente, marcou para sempre a vida de Abraão. Ele nunca mais foi o mesmo. Sua fé em Deus foi fortalecida.

Por fim, é óbvio que Deus sabia o resultado do teste. Mas Abraão não sabia. E ele precisava saber na prática: passando pelo teste, vivendo ele. Da mesma forma, podemos entender parte do mal que há no mundo como uma permissão ou concessão de Deus afim de nos testar. Não que Deus não saiba quem vai "passar" no teste, mas nós é que precisamos viver estas etapas, pois através delas nos desenvolvemos: somos seres temporais.

b) O mal existe por causa de Satanás: Se Deus é perfeito, ele deveria destruir Satanás.

Aqui, desta vez, o autor tenta colocar em risco a perfeição moral divina. "O mal existe por causa de Satanás, ou o Diabo" é também uma resposta possível. Os cristãos entendem o Diabo como o primeiro ser do Universo a se corromper, e que ao longo da história tem tentado corromper todo o resto da Criação. Mas então, porque Deus não destruiu Satanás desde o início, e porque Ele continua permitindo que este ser maligno continue existindo e corrompendo cada vez mais gente?

O que ocorre é que mesmo tendo se rebelado contra Deus, no fim das contas o diabo é um "instrumento" de Deus, pois ele leva o mal ao mundo e Deus pode usar este mal para seus divinos propósitos. O mal pode vir como tentação e separar aqueles que são corretos daqueles que são rebeldes. E para os que pecam, o mal pode vir como um castigo ou como uma advertência para mudar de caminho. Mesmo para os justos, o sofrimento pode trazer grandes lições para a vida de uma pessoa.

Além disso, lembre-se do que já dissemos na resposta anterior: tempo. É uma questão de tempo até que Deus destrua Satanás. De fato, Ele vai destruir, como já prometeu. Está lá em Apocalipse 20.10.

c) O mal tem que existir no Universo / outra razão

O cristianismo rejeita a ideia de que o mal tem que existir - no sentido de haver uma espécie de equilíbrio cósmico eterno entre bem e mal. Isto é um dualismo que combina mais com as religiões orientais. Não existem dois deuses, o 'deus bom' e o 'deus mal'. Existe apenas um Deus, e ele é todo-bom. Logo, mal não tem que existir necessariamente. Mas certamente pode haver outras razões além das que ele mencionou para a existência do mal. Por exemplo, como já dissemos, uma das formas pelas quais o mal se manifesta é o sofrimento de castigo aos que cometem injsutiças - e isto é um resultado da justiça de Deus, pois Ele é o Juiz do Universo. Seguindo essa resposta somos levados a mais uma pergunta:

6) Deus poderia ter criado um Universo sem o mal?


Esta é outra pergunta que não é tão simples de responder, existem visões diferentes na teologia e na filosofia quanto a isso. Vamos testar as duas possibilidades e ver se caímos em alguma contradição, como o autor espera que caiamos:

a) NÃO: Então Deus não é Onipotente!

Aqui há uma "pegadinha" do autor, que envolve justamente aquela confusão com a definição de "onipotência". Se algum teísta afirmar que Deus não poderia ter criado um Universo sem o mal, ele não está querendo dizer que falta em Deus a capacidade para tal ato (isto seria contradição), mas sim que é logicamente impossível criar um mundo sem o mal. Claro que essa afirmação é questionável, afinal é possível imaginar um mundo onde o mal não existe, e particularmente nós esperamos que Deus transforme este mundo em um mundo sem males no futuro. Mas talvez seja logicamente impossível criar um mundo onde o mal nunca apareça, em nenhum momento; ou, se assumimos que Deus concede livre-arbítrio às suas criaturas, seria logicamente impossível criar um mundo onde há escolhas livres e ao mesmo tempo não existe mal (isto será abordado mais à frente). Enfim, essas são apenas especulações, mas nenhuma delas é contraditória, como o autor quer levar a pensar.

b) SIM

Talvez a resposta mais aceitável é que Deus tem poder para criar um Universo sem mal. Isso é o mesmo que dizer que um Universo totalmente sem males não possui nenhuma contradição lógica. Mas isso acaba levando para outra pergunta:

7) Então por que Deus não criou um Universo sem mal?

Aqui o autor está se preparando para dar seu bote final. Mas perceba que essa pergunta de certa forma é equivalente à pergunta nº 5. O fato de Deus ser Senhor absoluto do Universo significa que nada escapa aos seus propósitos, em última análise, então perguntar por que o mal existe é o mesmo que perguntar porque Deus permite a existência do mal no mundo, ou porque não criou um Universo onde o mal não fosse uma possibilidade.

As possíveis respostas a essa pergunta não diferem de antes. Ou podemos lembrar do fato que se Deus permite que o mal existe, é porque Ele tem um propósito para tal, como por exemplo o de nos testar (e já respondi a isso acima), ou podemos voltar a questão anterior, apelando ao livre arbítrio: se Deus quer criar seres livres, de forma que possam amá-lo voluntariamente, necessariamente deve existir a opção de rejeitá-lo, o que, por definição, é o mal. Esta é uma resposta bastante simples e bastante convincente, e é aceita pela maioria dos teólogos e filósofos cristãos. Mas aí vem o bote final do autor:

8) Deus poderia criar um Universo com livre-arbítrio mas sem o mal?

Essa pergunta capciosa é deixada para o final porque o autor quer colocar o crente em um beco sem saída: ao responder que não, se negaria a onipotência, ou respondendo sim, a pergunta "por que Deus não criou um Universo sem mal?" permanece.

Pois bem, a resposta a essa pergunta é NÃO. E note, não estamos negando a onipotência! O fato é que é logicamente impossível existir um mundo com pessoas livres mas ao mesmo tempo que não podem escolher uma das opções.  Aqui é importante prestar atenção num detalhe: não estou falando de liberdade de escolha geral. No sentido mais geral de liberdade, pode haver muitas opções. Por exemplo, numa sorveteria você pode escolher vários sabores de sorvete. Se um dos sabores está em falta, você ainda é livre para escolher os outros, mesmo que você não possa escolher uma das opções. Mas o livre-arbítrio, aqui, refere-se às escolhas do campo moral. No campo moral, sempre há apenas duas opções: o certo ou o errado; o bem ou o mal. Isso significa que se você é privado de uma das opções, você não é mais livre, porque só pode escolher uma. Logo, é impossível existir livre arbítrio [moral] se as pessoas só podem escolher o bem (ou se só podem escolher o mal).

CONCLUSÃO

O "Guia fácil e rápido para desarmar um religioso" se mostrou apenas um conjunto de armadilhas falaciosas para tentar colocar desavisados numa posição de contradição. Com algumas noções simples de estudo sobre o cristianismo é fácil escapar das armadilhas. Mas o Problema do Mal está longe de ser um assunto fácil em si: há muito o que ser discutido sobre, e se os leitores quiserem se aprofundar no assunto, há os textos daqui do blog, e também este livro de Alvin Plantinga que é bastante interessante.

Enfim, espero que tenham se divertido!
Abraços, Paz de Cristo.

9 comentários :

  1. Li o artigo e achei algumas respostas satisfatórias e outras não, mas o que chamou minha atenção foi esse ponto:
    "...é logicamente impossível existir um mundo com pessoas livres mas ao mesmo tempo que não podem escolher uma das opções. [...] Mas o livre-arbítrio, aqui, refere-se às escolhas do campo moral. No campo moral, sempre há apenas duas opções: o certo ou o errado; o bem ou o mal. Isso significa que se você é privado de uma das opções, você não é mais livre, porque só pode escolher uma. Logo, é impossível existir livre arbítrio [moral] se as pessoas só podem escolher o bem (ou se só podem escolher o mal)."
    No paraíso as pessoas não deixarão de serem livre ou terem o livre-arbítrio correto? Mas tbm se bem me lembro no céu não haverá maldade. Como isso séria possível se vc mesmo diz que com livre-arbítrio há maldade?

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    1. você msm deu a resposta, o paraíso, c a pessoa escolheu a bondade a vida toda, vc acha necessário chegar lá e ter a outra opção que vc n queria? (a maldade)

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    2. Sugestão de respostas:

      O mal existe?
      Insiste.

      Deus pode derrotar o mal?
      O mal já foi condenado em Cristo.

      Deus sabe sobre o mal?
      Adivinhe.

      Então, porque o mal existe?
      O Universo é completo. Tudo o que é possível existir existe.

      Deus poderia ter criado um Universo sem o mal?
      O propósito do Universo não é a luta entre o bem e o mal.
      Só Deus é bom, e o homem é chamado a buscá-Lo.
      E se o mal pode ser julgado, qual é o problema?

      Então por que Deus não criou um Universo sem mal?
      Se o mal pode ser julgado, qual é o problema?

      Deus poderia criar um Universo com livre-arbítrio mas sem o mal?
      Se o mal pode ser julgado, qual é o problema?

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  2. Os iluminados neoateus nonsense dizem:
    Bem... mas Deus sendo onisciente já saberia dos atos maus e terríveis de muitíssimos homens no mundo que Ele criou; portanto Deus é o culpado!!... sim é mais fácil e cômodo culpar a Deus por nossas escolhas ruins!
    Mas o fato de Deus saber o futuro não muda em nada o fato dos seres humanos o construírem, e construírem a partir do livre-arbítrio que eles possuem. O que o homem se tornou foi o que ele escolheu.
    "Nós não fomos cria­dos para a morte, mas morremos por nossa própria culpa. A liberdade nos deixou; nós que éramos livres, nos tor­namos escravos; fomos vendidos pelo pecado. Deus não fez nada mau; fomos nós que produzimos a maldade; nós que a produzimos, porém somos também capazes de recusá-la” (Taciano, Diálogo com os Gregos, Cap.11).

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Eu queria saber sobre quando Deus trouxe o diluvio pq sentiu um pesar por ter criado a humanidade. Se Ele sabia da maldade e de nossa escolha pq Ele destruiu tudo (sendo que ele tinha um plano)?

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    1. Ana,
      O SABER de Deus não implica falta de responsabilidade do homem. Se fosse assim, poderíamos culpar a Deus por tudo de mal e ruim que os homens FAZEM neste mundo.

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    2. O problema não foi necessáriamente a humanidade.
      Em gênesis 6, fala sobre os anjos que desceram a terra para se relacionarem com humanas, assim gerando gigantes.
      Só que essa passagem é breve e não conta outras coisas como:
      Esses anjos abdicaram de seus postos celestiais (desertaram), em troca de uma vida carnal;
      Eles que propagaram o conceito de politeísmo. Segundo o livro de Enoque, cada anjo ensinou um "truquezinho" pra humanidade pré diluviana;
      Eles são o que o history channel chamam de alienígenas do passado;
      Os anjos corromperam o dna humano;
      A tecnologia e progresso deles evoluiu mui rapidamente, mas como toda grande metrópole que trás consigo progresso, trás junto desigualdade e violência;
      Os gigantes eram perversos e devoravam até a sí mesmos.
      Se não houvesse o dilúvio a raça humana seria toda alterada, não iria ser difícil encontrarmos centeuros, minotauros, ou outras modificações que deixariam qualquer transhumanista em êxtase.
      Prefiro como está. rsrs

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  5. O paraíso é como se Deus agrupasse os que escolheram o bem. Note que eles continuam sendo livres

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