quarta-feira, 27 de abril de 2016

Werner Heisenberg e o fim da ciência materialista

Rita Foelker 



Werner Heisenberg (1901-1976) foi um cientista que valorizava a filosofia, interessava-se em refletir sobre a condição humana e nos deixou muitos textos filosóficos. Ele criticou a ciência materialista, tinha uma concepção própria da origem da ontologia materialista que predominou nas ciências posteriores a Descartes e entendia que este predomínio tinha relevantes consequências éticas e sociais.

Para adentrar alguns aspectos do pensamento do físico alemão, precisamos entender inicialmente em que consiste o materialismo que ele critica.

Para entender-se mais exatamente do que trata o materialismo, recorremos à abordagem sinótica de Oswaldo Pessoa Júnior (2006), que resume as teses do materialismo em dois grupos: as nucleares – definidoras do materialismo – e as periféricas, cuja negação pode ser consistente com ele. As teses definidoras do materialismo, para o autor, são:
  • A natureza segue seu curso conforme leis científicas nas quais, caso exista um Deus, ele não interfere.
  • Podemos nos referir à natureza como uma realidade independente da perspectiva do observador.
  • Nada existe fora ou independente da matéria, mente e alma são fenômenos explicáveis pelas leis da matéria.
  • Não existem desígnios ou causas finais, expressos nas leis da natureza.

Pensamento de Heisenberg


Ao ler os escritos de Heisenberg, verificamos seu entendimento de que a ciência não tinha estas características na Antiguidade e Idade Média. A natureza então era tida como uma criação divina e esta característica lhe era inseparável, o que se depreende das filosofias de Platão e Aristóteles.

A matematização das leis da natureza, contudo, que se inicia na Renascença com Galileu Galilei, tornaria possível pensar que se pode compreender o mundo sem necessitar de uma divindade, mas por meio das leis nela inscritas, que os homens desvendam. No século XVII, Descartes instituiria pela primeira vez na filosofia a cisão tripartite da realidade - entre o eu, o mundo e Deus –, num exercício de racionalidade que se pode acompanhar em suas Meditações Metafísicas. Seguindo os passos de sua argumentação, chega-se a uma conclusão cujo efeito é o sujeito e o objeto se apartarem um do outro, o pensamento de um lado, a coisa do outro, sendo atributo do pensamento compreender a coisa que é totalmente distinta dele. E ambos distanciarem-se de Deus.

A física clássica, a partir de Newton*, consubstanciaria a realização desse projeto: apresentaria um tipo de conhecimento eminentemente objetivo, da mente sobrepairando a matéria e podendo conhecê-la e manipulá-la, criando uma descrição do comportamento da matéria no espaço e tempo como uma entidade separada da mente e de Deus.

Os avanços da ciência no século XIX, contudo, mostrariam as dificuldades enfrentadas por esse modelo de ciência. O quantum de ação de Planck, a teoria do campo de Faraday, o experimento com a radiação do corpo negro de Maxwell, por exemplo, apresentariam resultados perturbadores dessa visão mecanicista-materialista. E a crise da física clássica se aprofundaria ainda mais após a publicação dos artigos de Einstein entre 1900 e 1905.

Para Heisenberg, os efeitos de tal crise ultrapassariam as fronteiras da ciência e colocariam em pauta o próprio conceito de realidade em que acreditamos.


Realidade


Diferente da física newtoniana, a física atômica e quântica apresentam conclusões contra-intuitivas: não obedecem à linearidade do tempo, inserem o observador no experimento, dissolvem a matéria em elementos ínfimos que não se parecem em nada com a matéria macroscópica de nossas experiências cotidianas. 
Quanto ao papel do observador nos experimentos, a relação entre sujeito e objeto implícita na física clássica era caracterizada pela total autonomia. Podia-se falar de átomos como coisas, como pequeninos objetos independentes em relação ao pesquisador. Os avanços da física moderna impossibilitaram esta compreensão da natureza, na medida em que não foi mais possível descrever o mundo sem referência ao homem, pois não mais se podia falar de um objeto observado do observador.

“Pouco a pouco, se foi modificando o significado da palavra [natureza] como objeto de pesquisa da ciência” (HEISENBERG, s.d., p.10). A ciência deixou de tratar da natureza, para tratar de nosso conhecimento da natureza.

As partículas mais diminutas se tornaram expressões meramente simbólicas, deduzidas matematicamente.

Como assimilar essas transformações?


A resposta a tantas transformações, segundo Heisenberg, seria repensar o conceito de ciência, abandonando o materialismo que a condicionava anteriormente e admitindo os limites da investigação científica.

Nesta nova perspectiva, a ciência não mais pode ser entendida como o único conhecimento possível da natureza. Nem a natureza pode ainda ser entendida como um conjunto de coisas.

A ciência é possível onde há certo grau de objetividade a ser alcançado. Quanto mais um determinado conhecimento está relacionado ao sujeito, menos a ciência pode se pronunciar sobre ele. Desse modo, há parcelas da natureza não alcançáveis pelo conhecimento científico.

A ciência não mais fala o que é a natureza – e nem poderia – ela não emite a última palavra sobre seu funcionamento como algo independente do modo como nos relacionamos com ela.

Heisenberg afirmará, em vista disso, que a ciência precisa ser vista como um elo da “cadeia infinita de contatos” que o homem estabelece entre si mesmo e a natureza.

Ao buscar a objetividade, escolher um centro de interesse e definir variáveis, a ciência de certo modo nos distancia da natureza em sua totalidade. Mas é ela também um meio de reconhecimento do papel do ser humano nessa rede de conexões que constitui a realidade.


A matemática


Ao fazer ciência, descobrir regularidades e traduzir conceitos em linguagem matemática (simbólica), o ser humano gera um grau de compreensão da realidade, segundo seu alcance intelectual. Para Heisenberg “a matemática é [...] a linguagem em que os problemas podem ser postos e resolvidos” (s.d., p57).

Ele afirmaria, também: “Se a natureza nos conduz a formas matemáticas de grande simplicidade e beleza [...], não podemos evitar pensar que elas sejam “verdadeiras”, que revelem um aspecto genuíno da natureza. Pode ocorrer que essas formas também abranjam nossa relação subjetiva com a natureza, ou seja, reflitam elementos de nossa economia do pensamento. Mas o simples fato [...] de nunca termos podido chegar a estas formas por nós mesmos, de elas nos serem reveladas pela natureza, é uma forte sugestão de que elas devem fazer parte da própria realidade, e não apenas de nossos pensamentos sobre a realidade” (HEISENBERG, 1971, p.68, tradução minha).

Heisenberg, assim, propõe que a natureza contém formas belas e simples que se traduzem matematicamente. Estas formas levam ao reconhecimento de uma ordem subjacente, inalcançável pela ciência, que Heisenberg denominaria em diversos escritos como “ordem central”. Segundo ele, “sempre houve um caminho para a ordem central na linguagem da música, na filosofia e na religião” (HEISENBERG, 1971, p.11, tradução minha).

“Ordem central”


O físico alemão afirma: “Nas diversas filosofias e religiões, vários nomes foram dados à bússola: felicidade, vontade de Deus, sentido da vida, para mencionar apenas uns poucos. [...] Tenho a clara impressão que tais formulações procuram expressar a relação do homem com uma ordem central. Todos sabemos que nossa própria realidade depende da estrutura da nossa consciência; não podemos objetivar mais que uma pequena parcela de nosso mundo. Porém, mesmo quando tentamos investigar o domínio subjetivo, não podemos ignorar a ordem central” (id., 1971, p. 214, tradução minha).

Ainda sobre o papel desta ordem, lê-se em Physics and Beyond..., que: “As condições geológicas e climáticas especiais vigentes no nosso planeta conduziram ao surgimento de uma química complexa do carbono, com moléculas gigantescas nas quais informação pode ser armazenada. O ácido nucléico mostrou-se um reservatório apropriado de informações sobre a estrutura dos seres vivos. Com ele, uma decisão única foi tomada e foi estabelecida uma forma que determinou todos os processos biológicos posteriores. [...] Nossas partículas elementares são comparáveis aos sólidos regulares do Timeu de Platão. São os modelos originais, as ideias da matéria. O ácido nucléico é a ideia do ser vivo. Tais modelos determinam todos os desenvolvimentos subsequentes. Eles são representativos da ordem central” (1971, p.240-241, tradução minha).

Retomando as teses definidoras do materialismo, percebemos a lógica de Heisenberg para destruí-las:

Há, portanto, uma ordem central subjacente a todos os fenômenos que integram a vida humana, ordem que revela regularidade, unidade, simplicidade e beleza das estruturas presentes na natureza. As leis científicas resultam de uma decisão, uma intenção inteligente, segundo Heisenberg, o que torna possível pensar-se num Criador, embora o físico alemão não admita isso abertamente.

A descrição da natureza não pode ser feita de sem levar-se em conta a perspectiva do observador, o que solapa a tese de um mundo externo totalmente independente.

Não existe apenas matéria. Há algo além da matéria no Universo, que pode ser traduzido como “ordem central” e é percebido em forma de relações matemáticas, beleza e simplicidade. A ocorrência de tais decisões torna possível pensar-se em causas além das meramente eficientes. Em uma teleologia ou finalidade para essas leis.

_____

*Newton, pessoalmente, não pensava deste modo, e entrever Deus por meio das leis do Universo é uma das características presentes em suas obras, especialmente a Optica.

PESSOA JÚNIOR, O. O dogmatismo científico de tradição materialista. In: Estudos de História e Filosofia das Ciências: subsídios para aplicação no ensino. São Paulo: Livraria da Física, 2006. p.41-57.

HEISENBERG, W. Physics and beyond: encounters and conversations. Londres: Allen & Unwin, 1971.______. Física e filosofia. Tradução Jorge Leal Ferreira. Brasília: UnB, 1981.

______. A imagem da Natureza na Física Moderna. Tradução J. I. Mexia de Brito. Lisboa: Livros do Brasil, s.d.

Um comentário :

  1. Porque a bíblia e não o Alcorão? Por que não os livros sagrados indus, indianos etc...? Todos eles tem fortes argumentos para sustentar seu livro sagrados!

    E quanto a bíblia? Quem selecionou os textos que deveriam ou não deveriam estar lá? (por que ao invés de apocalipse de Pedro, colocaram o de João? No lugar do evangelho de Lucas não colocaram o de Tomé por exemplo? Quem definiu o que seria inspirado e o que não seria? Foram essas pessoas inspiradas para fazer esse trabalho? Por que a bíblia foi compilada, montada e definida por aqueles que não a escreveram?

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