sábado, 9 de março de 2019

O "Espectro criação-evolução": Quatro visões


Olá, leitores. Após o anúncio recente da minha mudança oficial de posição quanto à teoria da evolução, alguns leitores ficaram espantados. Teve até gente que veio me perguntar se eu perdi minha fé... calma, pessoal! Minha fé está tão ou mais forte do que antes. Alguns esclarecimentos maiores sobre o assunto virão em breve. 

Por ora, eu ainda preciso introduzir o assunto aqui no blog, pois falei muito pouco sobre a questão das origens em todos esses anos. Acho que isso foi de propósito. Nunca gostei de polarização em assuntos concernentes a fé, e sempre respeitei a visão de outras pessoas sobre o assunto. A minha própria visão foi meio indecisa por muito tempo.

Mas o fato é que existem estudiosos importantes dentro do cristianismo e inclusive institutos de pesquisa e divulgação que defendem as mais variadas posições entre criação literal e evolução. Não são apenas duas. Eu poderia enumerar talvez uma dúzia de subdivisões, mas para propósitos didáticos, é conveniente agrupar em quatro grandes visões sobre a criação do Universo e da vida. O nome mais comum dessas quatro visões são: Criacionismo da Terra Jovem, Criacionismo da Terra Antiga, Design Inteligente e Evolucionismo Teísta. As quatro visões, nessa ordem, poderiam ser colocadas no que chamei de "espectro criação-evolução", um quase-contínuo de visões acerca das origens que se estende ao longo de uma linha.

Mas espere. Este nome não é muito adequado. Ele faz parecer que as posições se polarizam entre dois extremos: de um lado está o "criacionismo" e do outro lado está o "evolucionismo". Isto já é um pouco problemático, porque há um estigma muito grande em relação à teoria da evolução nos ambientes cristãos mais fundamentalistas, e colocar a visão evolucionária como o oposto de criacionismo faz justamente o criacionista literal pensar que está do lado "do bem" enquanto os opostos estão do lado "do mal", ou do evilucionismo (um trocadilho pra quem sabe inglês).

Por isso, deixe-me ressaltar desde já algo muito importante: TODOS OS CRISTÃOS SÃO, DE ALGUMA FORMA, CRIACIONISTAS. Sim, isso mesmo. Deixe-me citar para vocês um trecho do Credo Apostólico, um dos resumos mais antigos e importantes da fé cristã, e no qual todo aquele que se diz cristão deve acreditar:
"Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra (...)"
Afinal, todo cristão acredita que Deus é o Autor do Universo, que tudo o que existe veio à existência e continua existindo por causa de Deus. A discordância entre as posições do espectro está, então, em quando e como Deus criou as coisas. Basicamente, a diferença está na relação entre a interpretação dos textos bíblicos e a interpretação dos dados científicos.

Se todos os cristãos são criacionistas, todas as posições do espectro são uma forma de criacionismo. Assim, a quarta posição pode ser renomeada para algo como "criacionismo evolucionário".

O filósofo J. B. Stump, autor importante de muitos livros sobre a relação entre ciência e cristianismo, editou em 2017 um livro reunindo os principais expoentes importantes do assunto sobre as origens. O livro se chama Four Views on Creation, Evolution and Intelligent Design (Quatro Visões sobre Criação, Evolução e Design Inteligente, ainda não lançado em português) e apresenta justamente as quatro visões mencionadas acima.

A seguir falarei das quatro visões, suas características e visões principais.  

1) Criacionismo da Terra Jovem


Os proponentes desta visão defendem uma interpretação estritamente literal dos primeiros capítulos do livro de Gênesis, inclusive no tocante aos aspectos científicos. Assim, Deus teria criado o Universo ao longo de 6 dias literais, ou seja, períodos de 24 horas. A Criação ocorreu há aproximadamente 6.000 anos atrás. Esta data é extraída das genealogias descritas na Bíblia de Adão aos patriarcas hebreus. Nisto eles já estão assumindo a hipótese de que as genealogias de Gênesis são cronologias rigorosas. Mas mesmo se não forem, geralmente se coloca o limite superior de 10.000 anos para a antiguidade do ser humano, da Terra e do Universo.

Nesta visão, a morte, doença e atividade predadora não existiam antes do pecado entrar no mundo, com a queda de Adão. Em relação ao consenso científico, esta é a posição que mais está em conflito com a ciência atual. As evidências geológicas de uma Terra antiga são geralmente atribuídas ao dilúvio de Noé, que foi universal e causou muitas mudanças no planeta, inclusive o movimento dos continentes, a extinção de animais antigos e a alteração na proporção de isótopos radioativos na crosta terrestre (que é o mecanismo principal pelo qual a Geologia calcula a idade das rochas). As evidências astronômicas que apontam para um Universo antigo são refutadas por teorias mais elaboradas, que não cabe discutir aqui.

A organização Answers in Genesis é a principal divulgadora desta visão a nível científico. No livro Four Views, esta visão é defendida por Ken Ham (foto acima, à esquerda), que é fundador da organização. A nível leigo, grande parte dos cristãos atualmente adota esta posição, principalmente no Brasil. O nome brasileiro mais conhecido do criacionismo da terra jovem é Adauto Lourenço (foto acima, à direita), cujo livro já foi apresentado aqui no blog. Existe também a Sociedade Criacionista Brasileira.

2) Criacionismo da Terra Antiga


Esta visão é também conhecida como "criacionismo progressivo", sendo este nome preferível para evitar confusão: afinal, o próprio criacionismo evolucionário também é uma espécie de "criacionismo de Terra antiga".

Os proponentes desta visão defendem que os "dias" da Criação em Gênesis são períodos indeterminados de tempo, podendo ter ocorrido em milhões ou bilhões de anos. Em relação ao consenso científico, esta posição é intermediária: aceita as evidências astronômicas e geológicas de um Universo e uma Terra antigos, mas rejeita a teoria biológica predominante atualmente, que é a teoria da Evolução. As espécies teriam sido criadas diretamente por Deus, e existiria uma certa variabilidade possível entre tipos gerais de seres vivos (o que é chamado de "microevolução"). Deus criou os primeiros seres humanos, Adão e Eva, há dezenas ou centenas de milhares de anos (coincidindo com a data cientificamente aceita para o surgimento do Homo sapiens). Ao contrário da visão anterior, nesta visão a morte física existia no mundo antes do pecado. Assim, ou o ser humano era exclusivamente a única espécie fisicamente imortal antes da queda (talvez conseguindo a imortalidade artificialmente, por meio da Árvore da Vida), ou a morte descrita em Gênesis 3 é meramente uma morte no sentido espiritual.

O principal grupo representativo hoje para esta posição é a organização Reasons to Believe, cujo fundador, o astrofísico Hugh Ross (foto acima) é o responsável por defender o criacionismo progressivo no livro Four Views. Já publiquei um pequeno vídeo de Hugh Ross falando sobre Terra Antiga aqui no blog. No Brasil, essa visão é bem pouco difundida, não conheço ninguém que a defenda abertamente.

3) Design Inteligente

 

Ao contrário das visões anteriores, cujo ponto de partida era a interpretação bíblica de Gênesis, o  movimento do Design Inteligente tem a pretensão de que sua visão seja considerada uma teoria puramente científica. Assim, eles argumentam a partir apenas de dados científicos, chegando à conclusão que a estrutura intrínseca dos componentes do nosso Universo , notavelmente os seres vivos, só pode ser explicada pela existência de um projeto intencional, e portanto, de um Planejador (ou "Designer") inteligente. Não há nada na teoria que possa dizer quem é o Designer  - mas isso é exatamente o que se espera de uma teoria científica. Cabe ao cristão fazer o link entre a conclusão científica e o conteúdo da sua fé.

Stephen C. Meyer (foto acima à esquerda), bioquímico, é um dos fundadores do Discovery Institute, organização destinada à divulgação da teoria, e é o autor escolhido para defender o Design Inteligente no Four Views. Michael Behe (foto acima no centro) é o proponente original da teoria. Outro nome importante é o matemático William Dembski (foto acima à direita), que trabalha na parte de estatística de inferência e teoria da informação. No Brasil, o nome mais conhecido deste movimento é o químico Marcos Eberlin (foto abaixo), presidente executivo da Sociedade Brasileira de Design Inteligente e coordenador do Núcleo de Pesquisa Discovery-Mackenzie, na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Vale ressaltar que o Design Inteligente não é bem uma visão como as outras aqui apresentadas, mas é melhor vista como uma teoria científica, ou pseudocientífica, segundo alguns críticos. Assim sendo, não há um posicionamento oficial dos adeptos do DI acerca da idade da Terra, ou mesmo acerca do modo da criação: o próprio Michael Behe acredita na teoria do ancestral comum dos seres vivos e concorda parcialmente com a evolução darwiniana. Já Marcos Eberlin, por exemplo, é adepto da Terra Jovem e um crítico ferrenho da evolução.

4) Criacionismo Evolucionário


Esta visão abraça totalmente o consenso científico atual sobre as origens do Universo, da vida e do ser humano. Os defensores do criacionismo evolutivo acreditam que Deus dotou a Criação com os princípios e leis naturais, fazendo com que os componentes essenciais da vida se auto-organizassem e surgissem espontaneamente, com tempo suficiente e condições iniciais adequadas. A mutação gênica aleatória forneceu a imensa variedade que observamos no registro fóssil e nos seres vivos hoje, e a seleção natural determinou quais espécies sobreviveram e quais foram extintas.

Os cristãos evolucionistas acreditam na Bíblia e nas doutrinas centrais do cristianismo, como a Criação, o homem ser à imagem de Deus e o pecado original. Geralmente os primeiros capítulos de Gênesis são entendidos de forma a respeitar o contexto e propósito original dos textos, que não eram manuais científicos sobre o mundo, mas sim relatos de natureza altamente simbólica sobre lições morais importantes e contrapontos às cosmovisões rivais da época. Assim, não é comum reconhecer que Adão e Eva foram pessoas literais (embora haja exceções significativas a este ponto). 

O principal representante e defensor hoje da visão evolucionária cristã é a Fundação BioLogos, cuja presidente, Deborah Haarsma (na foto acima, à esquerda), foi a escolhida para expor esta visão no livro Four Views. O fundador da BioLogos, Francis Collins (foto acima, à direita) é outro nome de destaque. No Brasil atualmente quase não há visibilidade ou aderência a esta posição. A Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC²) tem feito o papel de divulgar o criacionismo evolutivo, divulgando livros sobre o assunto [em breve falarei mais a respeito], embora não a defenda oficialmente.

Observações

Apesar de essas serem as visões principais acerca do tema das origens, existem várias posições intermediárias. Só para citar algumas: a Teoria do Hiato, um intermediário entre criacionismo da terra antiga e da Terra jovem, defende que Deus criou a Terra e os animais em 6 dias, entretanto o  Universo possui bilhões de anos, em acordo com a cosmologia atual. Isto porque eles postulam um hiato temporal arbitrário entre o primeiro e o segundo versículos de Gênesis. Posso citar também um intermediário entre criacionismo progressivo e evolucionário: há quem defenda a evolução das espécies para os seres vivos, exceto para o ser humano. O homem teria sido a única espécie a ser criada especialmente e diretamente por Deus. Neste caso a leitura simbólica é observada para os dias da criação, mas o texto em que Deus cria o homem a partir do pó da terra é entendido literalmente.


Minha visão

Como vocês já sabem, minha visão variou bastante ao longo do tempo. Posso dizer que fui apresentado à "Teoria do hiato" quando criança, mas que minha posição foi algo parecido com o criacionismo progressivo desde o início, mesmo antes de conhecer este nome (fui criado como cristão). O texto que inaugurou este blog mostra sinais claros de criacionismo progressivo.

Embora eu não negasse categoricamente de início, nunca adotei a posição criacionista da Terra jovem. Ela sempre me pareceu forçar demais a interpretação dos textos de Gênesis, além do que esta leitura claramente leva a contradições, como mostrei no texto que acabei de citar e no vídeo que mencionei alguns parágrafos acima. Além disso, há muita dificuldade em conciliar esta visão com a ciência atual, sendo necessária uma postura de ceticismo exagerado em relação às descobertas científicas sobre a idade do Universo e da Terra (muitas delas, diga-se de passagem, feitas por cientistas cristãos).

Contei brevemente no texto anterior como tive contato com o Design Inteligente. Eu sempre achei a proposta interessante (e continuo achando até hoje), principalmente a versão do William Dembski sobre a inferência de design no Universo. Mas é importante notar que a inferência de design não refuta a evolução.

Hoje em dia, depois de algumas leituras (que ainda não são suficientes, tenho mais livros na minha lista sobre o assunto), estou mais confortável em assumir o criacionismo evolutivo. Pra mim me parece a opção mais sensata para um cientista sério, que está suficientemente cônscio da posição científica consensual sobre a origem das espécies biológicas. Essa posição parece levantar mais dificuldades em relação à conciliação com os dados bíblicos, mas isso é assunto para algum post próximo.

Abraços, Paz de Cristo.

Referências

Resenha do livro Four Views, por Jeremy Bouma.

Apresentação das quatro visões no blog Between the times, por Ken Keathley.

Um comentário :

  1. Na minha definição depois de muito meditar sobre meu gosto por ciências e curiosidade nas religiões, sempre querendo saber mais cheguei as seguintes conclusôes:
    O Espirito é essência primordial,virtual,imanente, que transpassa a realidade, um paradoxo para nosso conceito de existência. Ele é a união de tudo, de todas as informaçoes do que existe e do que esta fora de nossa existência. O Universo e talvez outros universos são partes materializadas do infinito, inaferível e infinito. O nada que atualmente descobriram que não é vazio e sim esta cheio de partículas que estão a pularem entre a existência e a não existência, é a barreira de nossa realidade,uma ilusão que engan nossa percepção, bem assim os eventos, que para quem não acredita pensa que é o acaso. Sua personificação de respeito e poder é DEUS,e é responsavel por todo acontecimento, sendo assim o destino inevitável de tudo. Apesar de ter inspirado os seres humanos do passado a escreverem a Bíblia, suas conciências eram limitados aquela época de pouco conhecimento. è logico que os seres humanos não nascem sabendo, e naquela época estavam começando a aprender. Então o que esta escrito na Bíblia é uma liguagem simples, limitada a ignorancia daqueles homens, e or isto escreviam por parábolas e figuras de liguagem, sem conhecimento técnico e pesquisas. Gênesis afirma que Deus criou em uma liguagem mística de valor moral, mais não diz como criou, com provas e pesquisas. A Bíblia um conjunto de livros de ciências,que explica os místerios da natureza, ela é de valor moral e de conduta. A ciência é resultado da curiosidade humana, em observar a natureza, a busca do conhecimento, que foi se acumulando durante o tempo. Acredito que a ci^ncia descobriu alguns dos mistérios de Deus, como o Big bang, a origem da vida, como usou a evolução para originar os diversos seres vivos e moldou o homem através dos tempos, não usando mãos porque Ele é espirito. E o homem da época com pouco conhecimento escreveu que foi cridado do pó, porque do barro se consegue modelar, era mais fácil de entender, do que ter que ensinar vários anos de ciências para pessoas do passado.

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