domingo, 14 de abril de 2019

[TRADUÇÃO] Interpretação do Genesis: um histórico pré-Darwin


Traduzido de BioLogos por David Sousa


Como o relato da Criação de Gênesis era interpretado antes de Darwin? 


Introdução

Muitas pessoas assumem que a teoria da evolução de Darwin deve ter abalado as fundação da Fé cristã por causa da diferença marcante entre o relato da evolução e a ideia de uma Criação do mundo em seis dias. Na verdade, a interpretação literal em relação aos dias dos capítulos 1 e 2 de Gênesis não foi a única perspectiva adotada por pensadores cristãos antes da publicação de A Origem das Espécies, em 1859. Os trabalhos de muitos teólogos e filósofos cristãos antigos revelam uma interpretação de Gênesis compatível com a visão científica darwiniana.

Pensamento Cristão Antigo


Orígenes, um filósofo e teólogo cristão do terceiro século, de Alexandria, no Egito - um dos grandes centros intelectuais do mundo antigo - serve de exemplo para o pensamento cristão primitivo sobre a Criação.

Mais conhecido por suas obras Sobre Primeiros Princípios e Contra Celso, Orígenes apresentou as principais doutrinas do cristianismo e as defendeu contra acusações pagãs. Orígenes se opôs à ideia de que a história da Criação deveria ser interpretada como um relato literal e histórico de como Deus criou o mundo. Houve outras vozes antes mesmo de Orígenes que advogaram por interpretações mais simbólicas do relato da Criação. E as perspectivas de Orígenes foram influentes também para outros pensadores cristãos primitivos que vieram após ele.[1]

Santo Agostinho de Hipona, um bispo do Norte da África durante o início do século V, foi outra figura central do período. Apesar de ser largamente conhecido por suas Confissões, Agostinho foi autor de dezenas de outras obras, muitas das quais focam nos dois primeiros capítulos de Gênesis.[2] Em O Significado Literal do Gênesis, Agostinho argumenta que os dois primeiros capítulos de Gênesis foram escritos para se ajustar ao conhecimento das pessoas naquela época.[3] A fim de se comunicar de forma que todos pudessem entender, a história da Criação foi contada em um estilo mais simples, alegórico. Agostinho também acreditava que Deus criou o mundo com a capacidade intrínseca de se desenvolver, uma visão que também se harmoniza com a evolução biológica.[4]

Pensamento Cristão Posterior


Houve ainda muitas outras propostas de interpretação literal de Gênesis 1-2 mais tarde na História. São Tomás de Aquino, um filósofo e teólogo bem conhecido do século XIII, estava particularmente interessado na interseção entre Ciência e Religião e foi fortemente influenciado por Agostinho. Tomás não temia as possíveis contradições entre a história da Criação em Gênesis e o conhecimento estabelecido em seu tempo.

Na sua Suma Teológica, ele responde à questão de se todos os seis dias da Criação são na verdade a descrição de um único dia [conforme a leitura de Gênesis 2.4 sugere], uma teoria que o próprio Agostinho sugeriu. Tomás argumenta em favor da visão que Deus criou todas as coisas com potencialidades em si mesmas:
"No dia em que Deus criou os céus e a terra, criou também todos os arbustos do campo, não em ato, mas 'antes de eles surgirem da terra', isto é, em potência. (...) Não foi por impotência de Deus, como se necessitasse de tem­po para operar, que todas as coisas não foram simultaneamente distinguidas e ornamentadas, mas para salvar a ordem na instituição delas." [5]
A perspectiva agostiniana da Criação pode ser vista até no século XVIII - logo antes de Darwin publicar A Origem das Espécies - nos trabalhos de John Wesley. Ministro Anglicano e fundador do movimento Metodista, Wesley, assim como Agostinho, argumentava que as Escrituras foram escritas em termos apreensíveis para a sua audiência original. Ele escreve: 
"O escritor inspirado nesta história [Gênesis] (...) [escreveu] para os hebreus primeiro e, calculando suas narrativas para o estado infante da Igreja, descreve as coisas através de suas aparências sensíveis exteriores, e nos deixa sermos guiados para a compreensão dos mistérios exprimidos dentro do texto por descobertas posteriores da luz divina." [6]
Wesley também argumenta que as Escritura "foram escritas não para satisfazer nossa curiosidade [de detalhes] mas sim para nos conduzir a Deus". [7]

No século XIX, o Seminário Teológico de Princeton era conhecido por sua defesa convicta do calvinismo conservador e pela autoridade absoluta da Escritura. Talvez o teólogo mais notável de Princeton naquela época, B.B. Warfield, aceitava a evolução como fornecendo um relato científico adequado das origens humanas. Ele acreditava que ouvir a voz de Deus na Escritura e os achados dos trabalhos científicos sólidos não estavam em oposição. Como o historiador Mark Nolls escreve, "B. B. Warfield, o defensor moderno mais capaz da doutrina conservadora da inerrância bíblica, era também um evolucionista".[8]

Conclusão

A história do pensamento cristão nunca foi dominada consistentemente por proponentes de uma interpretação literal do Gênesis. As descobertas da ciência moderna não devem ser vistas nem como incentivadores do abandono da confiança na Escritura, nem como contraditórias à Escritura, mas sim como uma espécie de guia em direção a um entendimento adequado do significado das Escrituras.

Agostinho oferece este conselho:
"E se lermos alguns escritos sobre assuntos obscuros e muito ocultos aos nossos olhos, mesmo divinos, que possam, salvando a fé na qual estamos imbuídos, apresentar várias opiniões, não nos lancemos com precipitada firmeza a nenhuma delas, para não cairmos em erro. Talvez uma verdade discutida com mais cuidado venha destruir aquela opinião. Desse modo, não estamos lutando em favor da opinião das divinas Escrituras, mas pela nossa de tal modo que queremos que seja das Escrituras a que é nossa, quando devemos querer que seja nossa aquela que é opinião das Escrituras." [9]
Notas e Referências

[1] Peter C. Bouteneff, Beginnings: Ancient Christian Readings of the Biblical Creation Narratives. Grand Rapids: Baker, 2008.

[2] Santo Agostinho, Confissões. Coleção Patrística, Volume 10, 1ª edição. Paulus, 2005.

[3] Santo Agostinho, Comentário ao Gênesis. Coleção Patrística, Volume 21, 1ª edição. Paulus, 2005.

[4] Para uma discussão mais profunda sobre a perspectiva agostiniana da criação, veja o capítulo 6 de A Linguagem de Deus, de Francis Collins (Ed. Gente, 2ª ed., 2007), assim como os capítulos 8 e 15 de O Ajuste Fino do Universo, de Alister McGrath (Coleção Ciência e Fé Cristã, Ed. Ultimato, 2017).

[5] Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, Volume 2. Edições Loyola, 2005, p. 344,345 (Questão 74, Artigo 2º).

[6] John Wesley, Wesley’s Notes on the Bible. Disponível online em http://wesley.nnu.edu/john-wesley/john-wesleys-notes-on-the-bible. Acessado em 14/04/2019.

[7] John Wesley, A Survey of the Wisdom of God in the Creation: or, A Compendium of Natural Philosophy, 3ª ed. J. Fry, 1777, 2:463.

[8] Mark A. Noll e David N. Livingston (editores), B. B. Warfield: Evolution, Science, and Scripture. Baker, 2000, p. 14.

[9] Santo Agostinho, Comentário ao Gênesis. Coleção Patrística, Volume 21, 1ª edição. Paulus, 2005. p. 31 (Capítulo XIX, 37).

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